sexta-feira, 28 de junho de 2019

Sobre Fanatismo e a Psicanálise Mal-humorada

Por Samara Megume Rodrigues*
Texto publicado  no Jornal Psicologia em Foco: edição 35/2018


Todo fanático, seja ele religioso, político, workaholic, obcecado de amor, é mal-humorado. Pois além de acreditar que existe a forma correta/completa/perfeita de aplacar todos os conflitos, essa ainda seria única. Não existe flexibilidade em seus investimentos afetivos e a  rigidez também é imposta às pessoas a sua volta. Afinal, quem é duro consigo mesmo adquire o direito de também ser com os outros.
 Só podemos rir quando deixamos cair nossa altura, nossa onipotência. Um tropeço pode ser ocasião de gargalhadas para alguns ou de vergonha e humilhação para outros. Freud (1905/1927) estudou o fenômeno do riso e comicidade em duas de suas obras. Não por acaso, são seus trabalhos menos lidos. O ser humano tem uma tendência maior em focar no sofrimento, na doença e na morte do que na saúde e na vida. Tão complexo quanto à dor é a alegria, porque não estuda-la? A resposta: porque não é coisa séria.
Existe uma piada que é bastante conhecida e é contada ora para denegrir o ofício da psicanálise, ora para apontar a sua frutífera singularidade. É assim:

Dois amigos se encontram, um deles visivelmente abatido. Quando questionado sobre seu estado ele diz que com sua idade ainda faz xixi na cama, o que o deixa mortificado. O amigo sugere que ele procure um psicanalista. Muito tempo depois, eles se reencontram e o queixoso está alegre, confiante e descontraído:
- Segui seu conselho e estou me analisando.
- Que bom, então você não faz mais xixi na cama?
- Continuo fazendo, mas agora eu nem me importo!

Embora saibamos da efetividade da psicanálise na modificação dos males do sujeito, há muita verdade nesta anedota. Diferentemente das outras psicologias, a psicanálise não se foca na cura do sintoma, mas na relação que o sujeito estabelece com a realidade. O humor altera exatamente essa relação. O que se transforma numa análise (e o que muda com humor) não são as tragédias da vida, mas a relação que estabelecemos com elas.
Uma constatação inquietante: o que nos faz rir é tecido com os mesmos fios daquilo que nos faz chorar. Ambos evidenciam algo que nos ultrapassa, que escapa do nosso controle consciente. Como entender a dinâmica do sujeito que, ao invés de se desesperar com a falha, sorri, extraindo prazer onde aparentemente só existiria dor?
Para Freud (1905) o chiste* [Witz] é a realização simbólica de desejos sexuais e agressivos. Ele é a satisfações de desejos reprimidos, mas diferente do sintoma, se encontra dentro dos limites da saúde mental. Em tom de brincadeira, o sujeito pode dizer o que deseja, atravessando as barreiras da moral e dos “bons costumes”. O chiste é uma formação do inconsciente (tal como os sonhos, atos falhos, sintomas, lapsos, esquecimentos). Mas ele possui a singularidade de ser intencional e criar laço social: ele comunica um saber que não pode ser completamente revelado.
Freud (1927) não investiga apenas as brincadeiras verbais, mas o humor como atitude psíquica do sujeito diante de si mesmo e do mundo. Ele revela que o que está em jogo é um papel afável do Supereu, que consegue amparar o Eu diante das adversidades. Como se o sujeito pudesse dizer a si mesmo: “Vejam, isso é o mundo que parece tão perigoso. É uma brincadeira de crianças, é bom para um gracejo!” (Freud, 1927, p.330). Trata-se da capacidade de saber perder, uma alegria súbita que acontece no reconhecimento da própria insuficiência (constitutiva da vida).
O sujeito incapaz de ter humor está preso a intensas idealizações. Freud  estudando esse mecanismo psíquico mostra que ele está presente na melancolia, nas perversões e na adesão cega dos indivíduos a um líder/tirano/grupo. Para Freud (1921) tal mecanismo renova a situação de abandono infantil, impondo uma relação entre um ser poderoso e um imponente e indefeso. O humor vai à contramão desta atitude, pois é um processo de desidealização.“O humor não é resignado é rebelde” (Freud, 1927), pois nele o sujeito consegue afirmar seu desejo diante das figuras de autoridade, configurando-se assim, como um avesso do sintoma. Não se trata de gozar do sofrimento, mas criar representações eróticas para ele. Ou seja, o humor seria uma “recusa” ao masoquismo.
O mau humor é mais contagioso do que gripe. Imagine então se você está numa situação completamente exposta, como um setting analítico. Por isso certifique-se de que seu analista toma os devidos cuidados: se ele próprio faz análise, supervisão e se mantém ativo, estudando.  Nada mais engraçado e consequentemente trágico, do que um analista fanático por interpretações. Onde o “sujeito suposto saber” funciona como uma máscara colada à cara, que nunca cai. A teoria lhe serve de escudo e a dissimetria da relação analítica é sua arma. A necessidade de ataque é proporcional à fragilidade. Há analistas que nunca riem, justamente porque o riso ameaça todas as autoridades. Não se trata de rir do analisando, mas rir com ele. São profissionais que não produzem com o paciente, mas trazem as verdades no bolso, a serem impostas.
O dogmatismo está a serviço do recalque. Como é possível produzir a abertura do inconsciente estando o analista preso ao seu próprio julgo superegóico?
A regra fundamental da Psicanálise, a associação livre por parte do analisando e atenção flutuante, por parte do analista, só é possível na medida em que algumas barreiras possam ser suspensas. A rigidez moral ou teórica do analista faz a atenção afundar.  Estaria ele disposto a abandonar a segurança das certezas para poder navegar, atravessando o insólito, inquietante, agressivo e assustador presente nas fantasias do analisando?
O estudo da metapsicologia do humor, da alegria, da arte (e demais processos sublimatórios) leva a uma direção de cura que aposta na invenção, em lugar da decifração (estéril) do passado.
Zaratustra de Nietzsche (1998) fala “Eu só poderia crer em um Deus que soubesse dançar”. A autoridade interna e/ou externa estática produz submissão e violência. Em uma análise é preciso saber descer e subir, se movimentar para poder achar a cadência e o ritmo do encontro analítico - sempre singular.
No fanatismo não é possível ter dúvidas, elaborar questões. Por isso ele é tão improdutivo/repetitivo. As certezas fecham a possibilidade de encontro com o novo. Para além (ou aquém) das respostas, em uma análise podemos construir boas questões sobre nossa história...que nos movimentarão a produzir melhor a partir de nossas falhas. Como escreve Luiz Fernando Veríssimo: “está certo, a gente morre sem entender o sentido da vida, mas não faz mal porque ninguém vai nos testar depois”.




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*Samara Megume Rodrigues, é psicanalista e psicóloga (CRP 08/18324), graduada em psicologia pela Universidade Estadual de Maringá, mestre em Psicologia pela mesma Instituição (na linha Epistemologia e Práxis em Psicologia). É idealizadora e coordenadora da Roda de Psicanálise: espaço de transmissão e Formação. 


**Chiste é uma tradução calcada no espanhol para o termo Witz no alemão, ela soa estranha ao vocabulário brasileiro, pois em português não existe uma palavra que represente perfeitamente o termo freudiano. Trata-se das frases espirituosas, das tiradas verbais, que engloba piadas, trocadilhos, etc.                                                                                                                                       



Referências Bibliográficas

Freud, S. (1996). Os chistes e a sua relação com o inconsciente. In: Edição Standard Brasileira das Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. (vol, 8). Rio de Janeiro: Imago. (Obra originalmente publicada em 1905).

Freud, S.(2014). O Humor. In: Obras Completas (vol. 17, P. C. de Souza, Trad.). São Paulo: Companhia das Letras. (Obra original publicada em 1927).


Nietzsche, F. (1998). Assim Falou Zaratustra. São Paulo: Companhia das Letras. 


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