domingo, 4 de fevereiro de 2018

O sofrimento como expressão da vida: os limites da cultura diagnóstica

Josiane C. Bocchi*
Aline Sanches*





Em nossa cultura, nos esforçamos para transformar toda experiência de sofrimento humano em uma patologia a ser tratada. Simão Bacamarte, o grande alienista, já sabia que “a ciência tem o inefável dom de curar todas as mágoas” (Machado de Assis, 1882/1993, p.48). Ao receber um determinado diagnóstico, “o neurótico”, “o depressivo” ou “o bipolar” nomeia-se – e é nomeado pelo saber do especialista - através de um ato de fala capaz de produzir performativamente novos efeitos, ampliando mas também restringindo outras possibilidades (Safatle, 2013). Quais são as implicações dessa psiquiatrização engendrada pelos manuais diagnósticos e pela medicalização crescente da vida contemporânea? As classificações partem do princípio de que todos os tipos de mal-estar podem ser codificados, diagnosticados e tratados com a mesma eficácia e precisão com que se trata um organismo e seu órgão afetado.
Temos assistido ao crescimento exponencial das estatísticas nos casos de autismo, TDH e depressão, a ponto de ganharem status de epidemias. Mas sabe-se que tais índices crescem na mesma proporção que os instrumentos diagnósticos que os identificam. Seguindo este raciocínio, sabemos que muitos diagnósticos de transtorno mental são efeitos da visão normativa dos manuais psiquiátricos e do mero anseio por classificar. Anseio este que não atinge somente os especialistas; quem sente um mal estar, imediatamente já começa a se identificar com listas de sintomas que circulam pela internet. É a busca de um nome para se ancorar ou para refutar: que tal um diagnóstico para chamar de seu? E, por acaso, um nome inclui? Sim, há novas identidades criadas e reinventadas em modismos e siglas: TEPT, TBP, LGBT...
Contudo, há diferentes modos de sofrer a vida que não precisam – e que muitas vezes não podem – ser nomeados. Assim, primeiramente gostaríamos de propor uma reflexão sobre o transtorno mental não como doença ou patologia – embora ele seja um signo do campo da psicopatologia -, mas fundamentalmente como uma experiência de sofrimento. Em seguida, pensar o sofrimento como indissociável de uma categoria política que aspira ao reconhecimento (Dunker, 2015), uma vez que o sofrimento comunica, anuncia, denuncia, cala certas coisas, grita outras, mas aponta limites. Pode ser limites de um indivíduo, de um coletivo ou de uma sociedade e de sua época, da economia liberal, do mundo globalizado e de suas invenções efêmeras, onde produtos, grupos e pessoas são equalizados no mesmo registro do valor de troca; em que as demandas sociais impostas e/ou assumidas pelo sujeito, de eficácia e produtividade, refletem padrões inviáveis de consumo, beleza e vitalidade.
Assim, propomos deslocar o alvo de nosso furor diagnóstico, mirando a cultura e analisando seus sintomas e suas figurações de mal-estar, e não o indivíduo. Logo, encontramos vários autores que descrevem nossa atualidade como marcada por perdas e vazios, “entendida alternativamente como incapacidade do sujeito de reconhecer-se em sua própria história particular ou como dificuldade de estabelecer formas sociais universalmente compartilháveis” (Dunker, 2011, p.115). Cultura marcada por vínculos sociais rasos, frágeis e móveis, compondo narrativas esburacadas e solitárias, em que pesam “expressões do paradigma mórbido, que caracteriza a subjetividade moderna como um inventário de desencontros, falsas restituições, promessas irrealizadas e elaborações melancólicas” (ibid, p.119). Neste sentido, ancorar-se em uma classificação diagnóstica satisfaz certos aspectos de nossa necessidade de enraizamento e pertencimento, mesmo quando se trata de paragens reconhecidas socialmente como deficitárias, limitadas e patológicas. A noção de transtorno mental como doença, como déficit (de hormônio, neurotransmissor ou de ajustamento ao que se espera), busca padronizar o sofrimento e é representada pelo modelo médico que ganhou força a partir da década de 60 com a descoberta dos primeiros fármacos para psicose e depressão maníaca. Em contraposição a esta visão padronizadora do sofrimento, a psicanálise oferece meios para torná-lo singular, não para aumentar o fosso da solidão que nos separa uns dos outros, mas possibilitando a criação de uma narrativa pessoal e social em que me reconheço nos outros seres viventes, mesmo quando exalto minha originalidade e onde minha experiência de sofrimento torna-se matéria-prima para potencializar a vida.



* Josiane C. Bocchi é doutora em filosofia, psicóloga, professora de psicopatologia do Departamento de Psicologia da UNESP-Bauru.
* Aline Sanches é doutora em filosofia, psicóloga psicanalista e professora do Departamento de Psicologia da UEM. Coordenadora da Roda de Psicanálise.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

DUNKER, Christian Ingo Lenz. (2015). Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros. São Paulo: Boitempo.
DUNKER, Christian Ingo Lenz. (2011) Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 23, n. 1.
MACHADO DE ASSIS. O Alienista. Contos. Seleção, introdução, notas e questionários de Francisco Achcar. São Paulo: CERED– Objetivo, 1993. (Texto original publicado em 1882).
SAFATLE, V. P. O poder da psiquiatria. Revista CULT, São Paulo, v. 184, 16 out. 2013.


3 comentários: