segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Supervisão Clínica em Psicanálise

 Samara Megume Rodrigues*
                                                                     Aline Sanches*

A supervisão clinica, conjuntamente com a análise pessoal e o estudo teórico, é um dos pilares da formação do analista. Ela tem sido amplamente difundida e está presente dentro e fora das instituições psicanalíticas. Ocorre quando um analista procura outro, fora do seu contexto de análise pessoal, para falar de sua prática, de seus impasses e de dificuldades no tratamento de um paciente. Mas o ato de supervisionar não se limita a discussão teórica/diagnóstica, metodológica e técnica do caso clínico e não deve se  confundir com uma prática pedagógica. A supervisão também é um espaço para despertar efeitos analíticos e abertura do inconsciente, em que o supervisionando é confrontado com seus “pontos cegos”, angustias e movimentos defensivos. No entanto, o manejo dessas dificuldades não se dá de modo idêntico ao trabalho das resistências na análise pessoal, então, afinal, o que é uma supervisão?
A supervisão enquanto prática institucionalizada surge em 1920, na Policlínica de Berlim, inaugurando o modelo de formação de analistas que posteriormente seria adotado pela maioria das instituições: análise pessoal, cursos teóricos e supervisão. O termo aparece pela primeira vez em um relatório escrito por Max Eitingon, que foi um dos principais idealizadores da formação em psicanálise oferecida pela Policlínica. No entanto, pode-se entender que uma espécie de supervisão nestes moldes já estava presente desde a fundação da Psicanálise. Freud sempre necessitou reavaliar sua clínica, buscando um terceiro na sua relação com seus pacientes. Este lugar de terceiro foi ocupado tanto pela escrita de sua obra, quando pelas correspondências trocadas com Fliess e o debate com seus colegas (Moreau, 1977). Freud não apenas procurava interlocutores, mas era constantemente procurado pelos primeiros analistas, que necessitavam discutir sobre suas dúvidas e dificuldades teóricas e técnicas.
Embora a transmissão de conhecimento teórico tenha um espaço importante na prática de supervisão, esta não deve se confundir com a aprendizagem no sentido pedagógico, em que o professor comunica ao aluno um conjunto bem articulado do conhecimento, recorrendo à didática. Se o supervisor assume essa posição, ele acaba por submeter o material analítico inconsciente à domesticação racional, produzindo exatamente o reverso do que é indicado pelo método psicanalítico, este último pautado na associação livre, na atenção flutuante e na análise da transferência. Para falar da especificidade do método psicanalítico, Freud (1904) utiliza uma metáfora retirada da arte, e assim escreve:

Na verdade, entre a técnica sugestiva e a analítica há o maior contraste, aquele contraste que o grande Leonardo da Vinci condensou para as artes na fórmula per via di porre e per via di levare. A pintura, diz Da Vinci, trabalha per via di porre; é que ela coloca montinhos de tina onde eles antes não existiam na tela sem cores; a escultura, por sua vez, procede per via di levare, já que retira da pedra o necessário para revelar a superfície da estátua nela contida. (Freud, 1904, p.67)


As práticas de sugestão, e podemos incluir nelas algumas formas de psicoterapia e de ensino, trabalham per via di porre, não buscando os conflitos subjacentes aos sintomas, mas colocando sob eles um sentido suficientemente conveniente, buscando impedir “a ideia patogênica de se expressar” (Freud, 1904, p.67).  Já o método psicanalítico não busca imprimir sentidos racionais ao sintoma, mas “tirar e extrair” o excesso de sentido que cobre o desejo e as fantasias inconscientes. Ou seja, a análise e consequentemente a supervisão, visa o “des-recalque”, desfazendo as defesas e retirando as resistências que encobrem a verdade do sujeito.  Nesse sentido, como bem apontado por Regina Schnaiderman (1988) “analisar é um fazer saber e não um saber fazer”.
 Ropa (1996) aponta que a supervisão é uma prática de transmissão de saber, que vem do desejo do supervisionando de compreender o diagnóstico, estrutura, mecanismos de defesa e funcionamento psíquico de seu paciente. Portanto, ela deve englobar uma reflexão sobre o inicio do tratamento, entrevistas preliminares, abertura de análise, direção de tratamento e a interrupção ou finalização do processo analítico. Porém, o trabalho de teorização na supervisão guarda algumas especificidades. A autora o define como “teorização flutuante”, correlato da técnica de “atenção flutuante”, sendo este um trabalho permanente de construção e desconstrução de hipóteses diagnósticas, restabelecimento de elos entre leituras e transferência, possibilitando assim que o analista (re)encontre o caminho da descoberta freudiana, que passa pelo entrelaçamento entre teoria e técnica.
Em psicanálise, a técnica é fundamentalmente uma ética, pois contém a escuta do desejo fora dos parâmetros normativos e moralizadores. Não parte, assim, do paradigma da verdade universal, assumindo que esta é sempre parcial e singular. Desta maneira, o saber não é tido como algo fechado e acabado, mas algo em constante feitura. Entende-se que as certezas estão a serviço do recalque e produzem aderências idetificatórias, que facilmente se convertem em posturas dogmáticas e cristalizadas. Neste sentido, a supervisão e principalmente a supervisão em grupo, ganha importância como este espaço em que o analista sai da posição de aluno-discípulo e pode construir, coletivamente e por meio de escutas cruzadas, o saber sobre sua prática, “para não cair na armadilha de sempre escutar o que já sabe”
Na supervisão em grupo, o analista tem contato com colegas que se revezam na apresentação de situações particulares da experiência clínica, também aprendendo a ouvir como supervisor seus colegas, assim como em outro momento é ouvido por eles. Com isso, o analista em supervisão tem contato com diferentes aportes teóricos e manejos da psicanálise, diferentes leituras de Freud e distintos estilos clínicos. Esse confronto ajuda a desfazer identificações de maestria contribuindo para que o analista possa construir sua própria maneira de escutar e intervir, ou seja, um estilo clínico que lhe é próprio. Tendo isso em vista, Fétida (2001) irá afirmar que a supervisão é uma prática matricial, como artesões que trabalham sua improvável arte.
Sabemos que é sobretudo a partir da análise pessoal que se constrói as aptidões para a escuta do inconsciente em uma sessão e que esta é nosso primeiro modelo do fazer analítico. Desta forma, a supervisão também serve como contraponto (como terceiro) não apenas da relação do analista com seu paciente, mas também, da relação do supervisionando com seu próprio analista. Na supervisão, o sujeito pode “interrogar-se sobre os pontos de contato e de interferência de sua prática com sua análise” (Menezes, 2005 p.62), evitando uma aderência cega e automática a este modelo tão fundante e tão fundamental. Assim, ela promove a circulação do saber e da diferença, elementos necessários para que o analista possa encontrar a palavra singular presente na intermitência de ser sujeito.



*Samara Megume Rodrigues, é psicanalista (em formação pelo GTEP-SEDES) e psicóloga (UEM). Possui mestrado em Psicologia (PPI-UEM), na linha epistemologia e práxis em Psicologia. É idealizadora e coordenadora da “Roda de Psicanálise: espaço de transmissão e formação”.

*Aline Sanches é psicanalista (em formação pelo GTEP-SEDES) e psicóloga (UNESP). Possui doutorado em Filosofia (Ufscar) e Psicanálise (Paris VII).


Referências Bibliográficas

 Fédida, P.(2001) Entrevista: Supervisão e Formação. Jornal de Psicanálise. São Paulo, v.34 (62/63).
Freud (1904). Sobre Psicoterapia. In: Obras Incompletas de Sigmund Freud – Fundamentos da Clínica Psicanalítica. São Paulo, Autêntica.
Menezes, L, C. (2005). Considerações sobre a Supervisão.  Percurso: Revista de Psicanálise. n.35.
 Moreau, M. (1977). Análise quarta, supervisão, formação. In: Jornal de Psicanálise, v.34 (62/63), 2001.
Ropa, D. (1991). As três dimensões da Supervisão. Percurso; 3(5/6).
Schnaiderman, R. (1988). Política de Formação em Psicanálise: Alinhavando algumas anotações de leitura.  Percurso: Revista de Psicanálise. n.01. 






domingo, 4 de fevereiro de 2018

O sofrimento como expressão da vida: os limites da cultura diagnóstica

Josiane C. Bocchi*
Aline Sanches*





Em nossa cultura, nos esforçamos para transformar toda experiência de sofrimento humano em uma patologia a ser tratada. Simão Bacamarte, o grande alienista, já sabia que “a ciência tem o inefável dom de curar todas as mágoas” (Machado de Assis, 1882/1993, p.48). Ao receber um determinado diagnóstico, “o neurótico”, “o depressivo” ou “o bipolar” nomeia-se – e é nomeado pelo saber do especialista - através de um ato de fala capaz de produzir performativamente novos efeitos, ampliando mas também restringindo outras possibilidades (Safatle, 2013). Quais são as implicações dessa psiquiatrização engendrada pelos manuais diagnósticos e pela medicalização crescente da vida contemporânea? As classificações partem do princípio de que todos os tipos de mal-estar podem ser codificados, diagnosticados e tratados com a mesma eficácia e precisão com que se trata um organismo e seu órgão afetado.
Temos assistido ao crescimento exponencial das estatísticas nos casos de autismo, TDH e depressão, a ponto de ganharem status de epidemias. Mas sabe-se que tais índices crescem na mesma proporção que os instrumentos diagnósticos que os identificam. Seguindo este raciocínio, sabemos que muitos diagnósticos de transtorno mental são efeitos da visão normativa dos manuais psiquiátricos e do mero anseio por classificar. Anseio este que não atinge somente os especialistas; quem sente um mal estar, imediatamente já começa a se identificar com listas de sintomas que circulam pela internet. É a busca de um nome para se ancorar ou para refutar: que tal um diagnóstico para chamar de seu? E, por acaso, um nome inclui? Sim, há novas identidades criadas e reinventadas em modismos e siglas: TEPT, TBP, LGBT...
Contudo, há diferentes modos de sofrer a vida que não precisam – e que muitas vezes não podem – ser nomeados. Assim, primeiramente gostaríamos de propor uma reflexão sobre o transtorno mental não como doença ou patologia – embora ele seja um signo do campo da psicopatologia -, mas fundamentalmente como uma experiência de sofrimento. Em seguida, pensar o sofrimento como indissociável de uma categoria política que aspira ao reconhecimento (Dunker, 2015), uma vez que o sofrimento comunica, anuncia, denuncia, cala certas coisas, grita outras, mas aponta limites. Pode ser limites de um indivíduo, de um coletivo ou de uma sociedade e de sua época, da economia liberal, do mundo globalizado e de suas invenções efêmeras, onde produtos, grupos e pessoas são equalizados no mesmo registro do valor de troca; em que as demandas sociais impostas e/ou assumidas pelo sujeito, de eficácia e produtividade, refletem padrões inviáveis de consumo, beleza e vitalidade.
Assim, propomos deslocar o alvo de nosso furor diagnóstico, mirando a cultura e analisando seus sintomas e suas figurações de mal-estar, e não o indivíduo. Logo, encontramos vários autores que descrevem nossa atualidade como marcada por perdas e vazios, “entendida alternativamente como incapacidade do sujeito de reconhecer-se em sua própria história particular ou como dificuldade de estabelecer formas sociais universalmente compartilháveis” (Dunker, 2011, p.115). Cultura marcada por vínculos sociais rasos, frágeis e móveis, compondo narrativas esburacadas e solitárias, em que pesam “expressões do paradigma mórbido, que caracteriza a subjetividade moderna como um inventário de desencontros, falsas restituições, promessas irrealizadas e elaborações melancólicas” (ibid, p.119). Neste sentido, ancorar-se em uma classificação diagnóstica satisfaz certos aspectos de nossa necessidade de enraizamento e pertencimento, mesmo quando se trata de paragens reconhecidas socialmente como deficitárias, limitadas e patológicas. A noção de transtorno mental como doença, como déficit (de hormônio, neurotransmissor ou de ajustamento ao que se espera), busca padronizar o sofrimento e é representada pelo modelo médico que ganhou força a partir da década de 60 com a descoberta dos primeiros fármacos para psicose e depressão maníaca. Em contraposição a esta visão padronizadora do sofrimento, a psicanálise oferece meios para torná-lo singular, não para aumentar o fosso da solidão que nos separa uns dos outros, mas possibilitando a criação de uma narrativa pessoal e social em que me reconheço nos outros seres viventes, mesmo quando exalto minha originalidade e onde minha experiência de sofrimento torna-se matéria-prima para potencializar a vida.



* Josiane C. Bocchi é doutora em filosofia, psicóloga, professora de psicopatologia do Departamento de Psicologia da UNESP-Bauru.
* Aline Sanches é doutora em filosofia, psicóloga psicanalista e professora do Departamento de Psicologia da UEM. Coordenadora da Roda de Psicanálise.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

DUNKER, Christian Ingo Lenz. (2015). Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros. São Paulo: Boitempo.
DUNKER, Christian Ingo Lenz. (2011) Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 23, n. 1.
MACHADO DE ASSIS. O Alienista. Contos. Seleção, introdução, notas e questionários de Francisco Achcar. São Paulo: CERED– Objetivo, 1993. (Texto original publicado em 1882).
SAFATLE, V. P. O poder da psiquiatria. Revista CULT, São Paulo, v. 184, 16 out. 2013.