terça-feira, 25 de abril de 2017

Felicidade e sofrimento: um olhar psicanalítico sobre a cultura da analgesia

Felicidade e sofrimento: um olhar psicanalítico sobre a cultura da analgesia

Por Aline Sanches*, Lígia Murassaki* e Nicoli Guerra*

Na obra O mal-estar na civilização (1930), Freud aborda o tema da felicidade, afirmando que se trata de algo inerente ao desejo humano, ou seja, todos os homens buscam ser felizes. Paradoxalmente, nossa própria constituição restringe nossas possibilidades de felicidade e “o sofrer nos ameaça a partir de três lados”: do próprio corpo, com suas dores e medos; do mundo externo; e das relações com os outros seres humanos (Freud, 1930, p.31). Desse modo, a busca pela felicidade se traduziria mais pela evitação do sofrimento do que pela vivência de fortes prazeres. Ela dependeria de uma certa “arte de viver”, cujas diversas receitas podem ser encontradas nos registros deixados por inúmeros filósofos e sábios ao longo de nossa história. 

Ora, se a felicidade pode ser considerada uma meta natural do ser humano, em nossa cultura ela adquire uma faceta singular, em que deixa de ser uma busca para se tornar uma imposição. Vivemos em uma sociedade que prega o prazer imediato e ininterrupto por meio do consumo. Vivemos em uma cultura da analgesia, em que não basta minimizar o sofrimento, mas este deve ser abolido.
Inseridos nesse contexto, em que o “ser feliz” tornou-se uma obrigação, os sujeitos não mais encaram a felicidade como uma possibilidade, como resultado do cultivo de certos modos de viver, e sim como um dever a ser cumprido. Franco (2009) afirma que “Essa postura implica uma mudança radical em nossas estruturas psíquicas: o que antes era considerado de pertinência do Id (a busca do prazer) passou a ser de pertinência ao Superego”. A obrigatoriedade de ser feliz, atrelada ao rigoroso controle do Superego frente aos moldes de uma sociedade de consumo, aparece então intimamente ligada ao adoecimento psíquico dos indivíduos e, ironicamente, leva ao encontro da infelicidade que tanto se quer fugir.
Diante de tantas imposições feitas pela sociedade capitalista para se alcançar uma “norma” do que é ser feliz, os indivíduos passam a perseguir um ideal de felicidade – o que se comprova pelo sucesso dos livros de autoajuda – sem se dar conta do quanto este ideal é incompatível com a vida. As imposições para se alcançar uma felicidade padronizada, idealizada, acabam arrastando a pessoa para a frustração, culpa, sentimentos de exclusão e impotência. Mais do que isso, as tentativas de anestesiar e de fugir do sofrimento, impedem que o ser humano adquira recursos psíquicos para lidar com o desprazer e com a frustração, o lançando em um ciclo vicioso que infantiliza e inibe a expansão da vida.
A teoria psicanalítica nos ensina que o desenvolvimento humano é um caminhar lento e gradativo em direção a uma convivência cada vez mais suportável com o sofrimento e o desprazer. O sofrimento se impõe em nossa existência e nos obriga a crescer, a nos fortalecer e amadurecer. As práticas psicoterapêuticas devem trabalhar para que o sofrimento possa ser encarado e não evitado ou anestesiado, sobretudo nos casos em que este é tão insuportável a ponto de gerar sintomas físicos e psíquicos. É nesse sentido que elas devem se opor ao imperativo dominante da felicidade imediata e ininterrupta tão propagada pela nossa cultura do consumo e das drogas, que não oferece nem tempo nem espaço para as experiências de lutos, fracassos e desprazer.
Como dizia o poeta: “tristeza não tem fim, felicidade sim...”. Longe de querer propor uma cultura do sofrimento em oposição ao imperativo da felicidade, pretende-se apenas que o sofrimento seja tratado com mais respeito e dignidade, que seja acolhido em nossa existência como parte necessária da própria concretização da felicidade.

Referências:
FRANCO, O. A civilização do mal-estar pela não felicidade. Revista Brasileira de Psicanálise, São Paulo, v.23, n. 2, p. 183-192, 2009.
FREUD, S. O mal-estar na civilização. In Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 21. Trad. J. Salomão. Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1930)

* Aline Sanches é doutora em filosofia, psicanalista e professora do departamento de psicologia da UEM.
* Lígia Murassaki é acadêmica do 2º ano de Psicologia na UEM.

* Nicoli Guerra é acadêmica do 2º ano de Psicologia na UEM.

0 comentários:

Postar um comentário