sexta-feira, 10 de abril de 2015

SOBRE A PREMATURIDADE DO BEBÊ HUMANO

por Aline Sanches*

O bebê humano nasce sempre prematuro. Esta é uma das principais premissas da psicologia do desenvolvimento, que mostrará como uma espécie de “gestação” continua mesmo após o nascimento, necessária para que as funções cognitivas, neurológicas e psicológicas se estruturem adequadamente. Não só os órgãos motores e dos sentidos precisam amadurecer, mas é todo um aparelho psíquico, com seus circuitos de prazer e desprazer, que ainda precisa se formar.
Durante a vida intra-uterina, o bebê está firmemente sustentado pelo corpo da mãe e todas as suas necessidades são satisfeitas, sem haver qualquer noção de falta, de intervalo de tempo ou de espaço. O bebê não sabe o que é sentir frio, fome, desamparo ou solidão. A psicanálise, sobretudo com os autores pós-freudianos, desenvolveu uma serie de teorias para entender a vida psicológica e emocional dos primeiros meses de vida e mostrou que, longe da plenitude e paz que nos transmite a imagem de um bebê, este enfrenta uma espécie de teatro do horror, marcado por ansiedades persecutórias e vivências ameaçadoras.
Os desconfortos e dores advindos de sua impotência motora, de sua dependência da amamentação, de seu inacabamento anatômico e de sua insuficiência orgânica foram bastante explorados por Klein (1959) e Lacan (1938; 1949), que se utilizaram da expressão “corpo despedaçado” para se referir às sensações de desmembramento, de cair no vazio, de mutilação e evisceramento que assombram os pequenos. Sem ter ainda desenvolvida a sua capacidade simbólica, sem conseguir ainda distinguir entre um objeto real e um objeto alucinado, o bebê sente os desconfortos físicos da fome, do frio, das cólicas, do estar solto no berço, como desesperadoras ameaças de desintegração e de morte. Neste período, não há nenhuma distinção entre uma dor física e uma dor psíquica: assim, o alívio de um desconforto físico, como alimentar-se ou ter as fraldas trocadas é também um alívio mental, uma eliminação do desespero e da angustia. Se o bebê é cuidado por uma “mãe suficientemente boa” (aquela mãe comum que, segundo Winnicott, que não frustra demais nem de menos, que não satisfaz demais nem de menos), ele aos poucos vai se dando conta de que, mesmo diante da dor mais assustadora e insuportável, ele será socorrido, o seu sofrimento será dividido e aplacado e ele não será deixado só para lidar como puder com aquilo. “Ao se lembrar de como é ser confortado, o bebê começa a contar com seus próprios recursos mentais” (MILLER, 1992). Aos poucos, ele aprende a simbolizar o que antes era apenas “terror sem nome”: fome, solidão, fraldas molhadas e ciúmes, antes sensações indiscriminadas e assustadoras, agora tornam-se expectativas de seus objetos de satisfação correspondentes.
As implicações destes circuitos emocionais em formação são fundamentais para a vida psíquica e social futura, sobretudo no que se refere à capacidade de se recuperar das frustrações e dos momentos angustiantes da vida adulta. A despeito de algumas correntes psiquiátricas que defendem a etiologia dos distúrbios mentais baseado exclusivamente na genética e nas insuficiências neurológicas, a psicanálise insiste na importância dos cuidados nos primeiros meses de vida para a formação de um aparelho psíquico forte e saudável, apto a discriminar e a nomear dores e sofrimentos, podendo assim lidar com as experiências de prazeres e frustrações impostos pela existência.


*Aline Sanches é psicóloga (CRP 08/19679), professora e doutora em Filosofia e Psicanálise (UFSCar/Paris VII).

2 comentários:

  1. Sensacional! Breve, preciso e esclarecedor.

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  2. Ótimo texto.
    Um cavalo nasce andando. Um bebê nasce para o colo da mãe. Num primeiro momento pensamos que o cavalo em vantagem diante das ameacas terrenas. Porém a criança tem a.oportunidade de associar se desenvolvimento neuropsiquico ao ambiente vigente, dando-o uma vantagem esmagadora.

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