segunda-feira, 10 de novembro de 2014

COMO SE FORMA UM PSICANALISTA?


por Isabelle Maurutto Schoffen*

Na época de Freud, a recomendação àqueles que desejassem trabalhar com a psicanálise era simplesmente começar a praticar, e conforme as dificuldades surgissem deveria iniciar-se uma análise pessoal, pois somente por meio dela o candidato a analista poderia se convencer da existência do inconsciente.
Essa falta de regras, ou um aparente laissez-faire, não corresponde em nada com as formações oferecidas pelas instituições ao longo da história do movimento psicanalítico, que de modo contrário, encerrou o candidato a analista em uma série de regras, como o período mínimo de 5 anos de formação incluindo cursos, atendimentos clínicos supervisionados, além da análise pessoal 4 a 5 vezes por semana em sessões de 50 minutos. Não se chegou a essa metodologia de transmissão da psicanálise sem seus motivos, assim como as críticas a este método também tem sua razão de existirem. Nos apoiaremos no texto Transferências Cruzadas: uma história da psicanálise e suas instituições de Daniel Kuperman, sobre a história do movimento psicanalítico e a relação entre a formação e a instituição, para problematizar e esclarecer questões sobre a transmissão da psicanálise.
De modo geral, Kuperman (1996) divide em quatro tempos a institucionalização do Movimento Psicanalítico em seu período freudiano. 1) Primeiro: a criação em 1902 da Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras, em que o próprio Freud convidava os candidatos a analista a participar destas reuniões, a transferência era o método e estava direcionada somente a figura de Freud. Neste período surgiram os pioneiros que ajudaram Freud a escrever os primeiros capítulos da história da psicanálise, como Abraham, Ferenczi, assim como seus primeiros dissidentes, Jung e Adler. 2) Segundo: a criação em 1910, no Congresso de Nuremberg, da IPA ( International Psychoanalitical Association). Freud intencionava neste período reorganizar a “economia e a dinâmica transferencial do universo psicanalítico”, ele precisava transferir sua posição de líder para alguém mais novo – “transferência das transferências na psicanálise” (Kuperman, 1996). A escolha foi Jung, indicado como o primeiro presidente da IPA, o que logo se mostrou um equívoco. A dissidência de Jung é considerada como um significativo “trauma” na história do movimento psicanalítico.
3) Terceiro: “um movimento transferencial de retorno a Freud realizado pelo próprio Freud” (Kuperman, 1996). Diante da expansão e reconhecimento desta nova ciência, e também da decepção diante das dissidências de Adler e Jung, Freud (1914) entende ser necessário criar uma instância que pudesse ditar o que é e o que não é psicanálise e quem pode se denominar psicanalista.
Julguei necessário formar uma associação oficial porque temia os abusos a que a psicanálise estaria sujeita logo que se tornasse popular. Deveria haver alguma sede cuja função seria declarar: ‘Todas essas tolices nada têm que ver com a análise; isto não é psicanálise’. Nas sessões dos grupos locais (que reunidos constituíram a associação internacional) seria ensinada a prática da psicanálise e seriam preparados médicos, cujas atividades recebiam assim uma espécie de garantia. Além disso, visto que a ciência oficial lançara um anátema solene contra a psicanálise e tinha declarado um boicote contra médicos e instituições que a praticassem, achei que seria conveniente os partidários da psicanálise se reunirem para uma troca de idéias amistosa, e para apoio mútuo. Isso, e nada mais, foi o que esperava alcançar com a fundação da “Associação Psicanalítica Internacional”. Mas tudo leva a crer que era querer demais. Do mesmo modo que os meus adversários iriam descobrir que não era possível lutar contra a corrente do novo movimento, assim também eu acabaria percebendo que este não seguiria a direção que eu desejava vê-lo seguir. (Freud,1914/1991, p.43)

Vemos que desde o inicio da formação da IPA, Freud está ciente de que ela poderia tomar caminhos que ele discordaria. Vale destacar que o objetivo da IPA era “promover e apoiar a ciência da psicanálise fundada por Freud, tanto como psicologia pura como em sua aplicação à medicina e às ciências mentais e cultivar o apoio mútuo entre os seus membros para que fossem desenvolvidos todos os esforços no sentido da aquisição e difusão de conhecimentos psicanalíticos” (Freud, 1914, p. 43).  Adler foi contra esse objetivo, temendo a “censura e restrições sobre a liberdade científica”. Assim, esse trecho descreve o que se repetiu na história do movimento psicanalítico e compreende os questionamentos que se faz ainda hoje.
Freud interpretou as dissidências de Jung e Adler como desvios do desenvolvimento interno da psicanálise: “ambos são infantis, têm resistência à psicanálise e querem tomar o lugar de Freud” (Kuperman,1996). 
Em 1912 para evitar casos como o de Jung se repetisse – em que complexos pessoais não adulterassem a teoria pura – foi a criado o Comitê Secreto, uma sugestão de Ferenczi. A ideia era que um grupo de iniciados, analisados pelo próprio Freud, seriam os responsáveis por transmitir aos iniciantes a psicanálise sem adulterações. Nas palavras de Kuperman “Esta proposta revela, in status nascendi e a um só tempo, o paradigma da formação psicanalítica e a origem de seu malogro: o saber psicanalítico é transmitido fundamentalmente a partir da experiência de análise pessoal, e portanto, sua transmissão é regulada pela transferência”. Foi o fundador do Comitê, o próprio Ferenczi que mais tarde denunciaria os efeitos perversos e o processo de mediocrização produzido pela formação psicanalítica que, mesmo tendo a transferência como método de transmissão, passou a ser um instrumento de controle e padronização da formação.
4) Quarto tempo: Freud sai de cena e não mais é o centro das decisões: “A característica principal desse período será a de que, em um arranjo semelhante ao do assassinato do pai em Totem e Tabu, ninguém mais poderá ocupar o seu lugar, ou seja, a psicanálise ingressa na era burocrática, onde a lei é dura, mas é a lei, igual para todos. E o perfil do futuro psicanalista deverá enquadrar-se nesse esquema” (Kuperman, 1996).
Agora já temos condições de iniciar algumas reflexões. Freud ao longo de toda a sua obra coloca a transferência e a resistência como centrais nessa nova ciência e técnica. “Qualquer linha que reconheça esses dois fatos (transferência e resistência) e os tome como ponto de partida de seu trabalho, tem o direito de chamar-se psicanálise, mesmo que chegue a resultados diferentes dos meus” (Freud, 1914, p.26). O que nos chama a atenção nas colocações de Kuperman é a dificuldade e complexibilidade do uso desse método quando transposto do setting analítico para as instituições de transmissão por toda a história do movimento psicanalítico e até os dias de hoje.
Essa relação hierárquica que compõe e cena analista-analisando que é necessária para o início do tratamento deve ser desfeita ao longo do mesmo para que o analista não se coloque como uma ilusão substituta do desejo infantil de onipotência do paciente. A posição que o analista ocupa – o lugar daquele que se supõem deter o saber – na fantasia do analisando, deve ser temporária, conforme a análise vai transcorrendo o analisando se dá conta da sua fantasia de onipotência e consegue renunciar esse desejo, compreendendo-se castrado como todas as pessoas inclusive o analista. Enfim, o analista ocupa esse lugar de onipotência sabendo-se castrado, até que o paciente não precise mais dessa fantasia para suportar sua própria castração.
Mesmo no setting analítico suportar esse lugar de depositário do desejo do outro, sem refletir sobre nossos próprios desejos não é nada fácil, talvez quase impossível. E isso significa que na maioria das vezes podemos ser pegos em nosso próprio desejo narcísico de ocupar o lugar do mestre, ou o lugar de Freud, ou melhor, o lugar do pai totêmico. Somente tendo consciência desse desejo é possível reparar, sempre há tempo de construir um bom trabalho com nossos pacientes. A história do movimento psicanalítico mostra exatamente que nem mesmo os psicanalistas, e pode-se se dizer até mesmo o próprio pai da Psicanálise, não tenha caído nas armadilhas de seu inconsciente. Freud (1913/2012) nos alertou também que o desejo de ser Deus, ou de ocupar o lugar do pai totêmico, aponta para a dificuldade no indivíduo em aceitar a castração o que o mantém preso a várias formas de ilusão, sendo a ciência também pode vir a ser uma delas. Defender e manter a crença da onipotência é ignorar e negar a força implacável, ambivalente e indestrutível das pulsões, do inconsciente. Ninguém está imune.
A questão então é: Como transmitir a psicanálise, tendo a transferência e a resistência como método legítimo? Como evitar saídas narcísicas que engessam o poder criativo dos novos psicanalistas, como evitar que as transferências não sejam manipuladas para manter a relação de poder na transmissão do conhecimento psicanalítico que aceitam somente os que se adaptam às regras da instituição?
Não temos a intenção de responder a essas questões, mas apenas provocá-los a buscar mais informação a respeito dessa discussão e descobrir quais as saídas que os psicanalistas contemporâneos estão buscando para assegurar o método legítimo da psicanálise – a transferência – sem reproduzir a lógica da adaptação e obediência.


*Isabelle Maurutto Schoffen é psicóloga clínica, mestre em Psicologia pela Universidade Estadual de Maringá e idealizadora e colaboradora da Roda de Psicanálise.

* Imagem: Sigmund Freud, G. Stanley Hall, Carl Jung, Abraham A.Brill, Ernest Jones, Sándor Ferenczi. Setembro de 1909 na frente da Clark University

Referências

Kuperman, D (1996). Transferências Cruzadas: Uma história da psicanálise e suas instituições. Rio de Janeiro, Revan.
Freud, S. (1991). Contribución a la historia Del movimiento psicoanalítico. In Obras completas de Sigmund Freud (José Luis Etcheverry, trad. , Vol, 14. Buenos Aires: Amorrortu Editores (Trabalho original publicado em 1914).
Freud, S. (2012). Totem e Tabu. In Obras Completas de Sigmund Freud (Paulo César de Sousa, Trad. Vol. 11, pp. 14-244). São Paulo: Companhia das Letras (Original publicado em 1913) 


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