terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Que ciência é a psicanálise? Afinal, a psicanálise é uma ciência?

Por Aline Sanches*


A junção das palavras psicanálise e ciência provoca discussões acaloradas desde que Freud desenvolveu uma nova maneira de explorarmos o psíquico. Freud foi um jovem médico neurologista apaixonado pelas pesquisas de laboratório, onde atuava dissecando o sistema nervoso de peixes e enguias; diz a lenda que começou a atuar na clínica contrariado e apenas devido às suas necessidades financeiras, pois o que o atraía eram as investigações científicas sistemáticas. Sem dúvidas, este caráter investigativo e questionador nunca abandonou Freud, definindo-o como um pensador inquieto e incansável, que dedicou toda a sua vida a pensar de maneira metódica e muito criativa a problemática psicologia humana.
Passado mais de 100 anos desde sua criação, a psicanálise desenvolveu-se e ampliou-se com o trabalho de outros psicanalistas e no diálogo com outras disciplinas; recebeu várias críticas, e parte considerável delas dizem respeito à sua pretensão em tornar-se uma ciência. Tais críticas são oriundas de cientistas de áreas diversas e de filósofos, que nada viam de científico em seus critérios de verificabilidade e refutabilidade de hipóteses; mas também se originam entre os próprios psicanalistas, que defendem a necessidade da psicanálise se livrar dos resquícios científicos de seu surgimento e se aproximar das fronteiras estéticas da arte e da literatura, se ela realmente quiser ser capaz de compreender o humano em sua dimensão subjetiva, qualitativa e criativa[1].
Há certo consenso nestas críticas advindas de diferentes lados, de que a psicanálise, seja por não cumprir os requisitos necessários para ser ciência, ou para não perder o ser humano de vista, deveria desistir deste projeto que para Freud foi fundamental, tendo norteado todos os seus esforços teóricos. Mas também há aqueles que não abandonaram o projeto freudiano de fazer da psicanálise uma ciência, mas neste caso uma retificação deveria ser feita: a psicanálise deveria situar-se no campo das ciências humanas. Considerando que o psicanalista não aborda fenômenos externos e observáveis, mas uma vida psíquica que também pertence à sua própria realidade, somente compreensível a partir de sua própria vivência, os processos inconscientes não se explicariam pela análise empírica, pela verificação experimental de hipóteses ou pela construção de leis, mas seriam compreendidos em seu contexto vital e histórico pelo método hermenêutico-interpretativo. Portanto, nada teria a ver com as ciências naturais, a despeito dos projetos e dos esforços de Freud neste sentido.
Lembremos de Comte em seu Curso de Filosofia Positiva (1830-1842): apenas um único método de conhecimento científico é aceitável e só o que é acessível pela observação pode ser objeto científico, sendo expurgado de seu corpus toda e qualquer referência a concepções metafísicas ou abstratas e as questões de origem ou de finalidade. A ciência deve se ater à descrição dos fatos e à descoberta das leis naturais, segundo as quais os fenômenos se encadeiam uns nos outros. Do saber deve derivar uma técnica, pois o conhecimento das leis da natureza nos permite, quando um fenômeno é dado, prever o fenômeno que se seguirá e assim, agir sobre o primeiro para transformar o segundo. Este modelo de ciência é enfático quanto às possibilidades da psicologia: sua pretensão científica é uma ilusão e o conhecimento do ser humano só se daria por meio da fisiologia ou da sociologia descritiva e comparativa. [2]
Pensemos agora em Freud, médico neurologista em um momento em que própria psiquiatria busca enquadrar-se neste modelo de ciência – o neurônio ainda estava por ser descoberto –, procurando sem sucesso a causa das chamadas doenças mentais no corpo e no cérebro dos “loucos”; e em um momento em que a psicologia acaba de nascer científica e experimentalmente pelas mãos de Wundt, situando-se bem longe do campo das patologias.
Freud se depara com os casos de histeria, um conjunto de sintomas bizarros sequer reconhecido como doença – pois seus sintomas físicos não apresentavam lesões anatômicas correspondentes – e é a partir de sua investigação que a psicanálise surgirá, afinal nem a psiquiatria, e muito menos a psicologia tinham respostas aceitáveis para este fenômeno situado na interface do físico e do psíquico. Com a hipótese de processos psíquicos inconscientes, Freud demarca um novo território de investigações que não se situa nem nos processos físicos-corporais, nem nos processos cognitivos conscientes, mas em um ponto de entrecruzamento destes registros, um novo domínio do inconsciente e das pulsões, com funcionamento e regras próprios. Ao mesmo tempo, Freud afasta-se dos métodos de investigação – mas não das hipóteses – utilizados pela neurologia e pela medicina e busca na história do paciente e nas significações daí derivadas os parâmetros para interpretar esse registro psíquico.
Freud insistia que a psicanálise era uma ciência natural, o que não significava estar preso a um determinismo físico-químico, nem a um domínio restrito de atuação, enveredando-se desde o início em áreas reservadas à antropologia, à política, à cultura e às artes em geral. O fato de haver um substrato neurológico para a vida psíquica – posição que Freud sustenta através de sua metapsicologia, que em sua opinião seria substituída futuramente pelos avanços das neurociências – não era incompatível com a dimensão qualitativa e fenomenológica de suas investigações. Ou seja, a psicologia não é mero resultado ou reflexo de processos físico-químicos, já que a própria histeria demonstrava o poder do mental e das experiências vividas sobre o corpo.
 Muitos autores consideraram a postura científica de Freud como contraditória e ingênua, como se ele tivesse sido levado pelo seu contexto a definir a psicanálise como ciência natural apenas para não se confundir com charlatões ou curandeiros místicos, ou então devido a um apego sentimental aos seus anos de juventude no laboratório, ou mesmo por ignorância epistemológica, não percebendo a incompatibilidade do reducionismo científico presente em suas hipóteses naturais e neurológicas com o próprio caráter subversivo de sua obra.
Se Freud nunca ignorou os fundamentos biológicos e neurológicos da vida psíquica, ao invés de considerarmos isso como vestígio de um positivismo danoso a ser expurgado da psicanálise, podemos pensar que Freud está propondo um modelo de ciência ousado e inovador, na tentativa de superar uma dicotomia que se mostra cada vez mais ineficaz: a dualidade entre o físico e o mental. Situando a psicanálise neste interstício entre o físico e o mental, nesta região em que uma vida se produz, Freud não parece ver problemas em uma ciência fundamentada tanto na neurologia quanto nas artes e literaturas, por exemplo, justamente por nos fornecer uma concepção de ser humano que se produz no entrecruzamento desses dois domínios, sem que um tenha privilégio sobre o outro, mas a partir de uma dinâmica complexa e impossível de ser determinada pelos métodos científicos disponíveis em sua época – e hoje também. Neste caso, Freud coloca em questão o método enunciado pelo positivismo, mas também pelas ciências humanas. Embora estas tenham surgido como um protesto ao positivismo, não questionou esta cisão do ser humano em dois: corpo e alma, físico e psíquico, natureza e cultura, são dicotomias enraizadas na produção do conhecimento ocidental, e nelas as ciências humanas também se baseiam.
Freud parece trabalhar completamente alheio à divisão do campo das ciências em dois, naturais e humanas, e apresenta implicitamente um modelo científico que se esforça para pensar o ser humano além da distinção entre o físico e o psíquico, entre o natural e o cultural, entre o individual e o social. Ao situar a psicanálise no campo das ciências naturais, Freud apresenta uma concepção de natureza não mais oposta à cultura, mas uma natureza que é processo e que se constitui na história. Tendo sido extremamente original em seu modo de fazer ciência, pesquisadores importantes têm alertado para a necessidade de entender qual é a ideia de natureza presente em sua obra (SIMANKE, 2009).
“A presença da psicanálise entre as ciências, mesmo que ainda em obras, é capaz de estimular uma redefinição da epistemologia dominante” (HERRMANN, 2005, p.29). É neste sentido que devemos trabalhar, buscando técnicas e teorias que não mais partam do princípio de que o ser humano é dividido em dois – metade máquina viva programável, metade alma ou inconsciente) – nem do princípio de que o humano pode ser pensado independentemente das dimensões que o constitui, natureza e cultura imbricadas.



*Aline Sanches é psicóloga, mestre em Filosofia, doutora em Psicanálise e Psicopatologia. Atua como docente no ensino superior e como psicoterapeuta. 


Bibliografia
BIRMAN, J. Estilo e modernidade em psicanálise. São Paulo: Ed. 34, 1997.
COMTE, A. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1978.
HERRMANN, F.A. Clínica Extensa. In: BARONE, L.M.C. (coord). A psicanálise e a clínica extensa. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2005.
SIMANKE, R.T. A psicanálise freudiana e a dualidadeentre ciências naturais e ciências humanas. ScientiaeStudia, São Paulo, v. 7, n. 2, p. 221-35, 2009.




[1]É como se fazer boa psicanálise fosse incompatível com a ideia de se fazer ciência, princípio explícita ou implicitamente anunciado por psicanalistas respeitáveis. Cito como exemplo Joel Birman: “A psicanálise do futuro deve abdicar definitivamente de sua pretensão ao cientificismo, e se reconhecer como uma estilística da existência”. (BIRMAN, 1997, p.159).

[2]O que não impedirá Wundt de criar em 1879 o primeiro laboratório de psicologia científica dentro dos princípios do positivismo, dedicando-se a mensurar as atividades mentais conscientes através do controle rigoroso das sensações, percepções, sentimentos e emoções. Wundt dá início à história da psicologia científica e à várias teorias que situarão a psicologia no campo das ciências naturais/biológicas.