terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A ESPINHOSA RELAÇÃO ENTRE INDIVÍDUO E CULTURA

*Por Samara Megume Rodrigues




Num dia de frio de inverno um grupo de porcos-espinhos se aconchegou bastante, para se esquentarem mutuamente e não morrerem de frio. Contudo, logo sentiram os espinhos uns dos outros, o que os fez novamente se afastarem. E quando a necessidade de aquecimento os aproximava de novo, repetia-se o segundo mal, de modo que eram impelidos de um sofrimento para o outro, até acharem uma distância média que lhes permitisse suportar o fato da melhor maneira. (Freud, 1921, p.56)



Essa parábola foi escrita originalmente por Schopenhauer e citada na íntegra em nota de rodapé por Freud em Psicologia de Massas e análise do Eu (1921). Em Freud ela é usada como alegoria para afirmar que toda relação sentimental íntima e prolongada entre pessoas contém afetos de aversão e hostilidade, que apenas devido ao recalque não podem ser percebidos.
Entendendo essa passagem como metáfora da relação indivíduo-cultura, temos de início dois impossíveis: o frio e o espinho. Pois o frio aparece como impossibilidade de sobreviver sozinho (uniam-se para não morrer), o espinho representa as dificuldades de se viver junto (separam-se para não furar uns aos outros). Tal como os porcos-espinhos, existiria para o sujeito em sociedade um meio-termo, em que ele possa viver em harmonia com a cultura?
Seguindo o pensamento freudiano, podemos encontrar as duas respostas: sim e não. A compreensão do vínculo incompatível entre sujeito e cultura não é linear e homogênea e a maneira como cada analista lê e responde a essa inicial incompatibilidade leva a diferentes posicionamentos clínicos, que se desdobram em determinada ética, estética e política da sua prática.
Freud(1930) define a cultura como a somas das realizações que distingue homens e animais, cuja finalidade seria proteger o homem da natureza e regular as relações deles entre si. Assim, ela compreende tanto o desenvolvimento material (instrumentos), quanto o simbólico: normas, leis, moral. O sujeito necessita da cultura, para se constituir como humano. Somos seres sociais, porém não sem dor e sacrifícios.
Nossa civilização repousa, falando de modo geral sobre a supressão dos instintos” (Freud, 1908, p.173). Para conseguir viver em sociedade cada indivíduo precisa renunciar uma parte da sua onipotência e da agressividade, sendo que dessa renuncia surgem tanto os sintomas/patologias psíquicas, quanto o acervo cultural de bens materiais e simbólicos.
Primeiramente, Freud revela em “Moral Sexual Civilizada” (1908) que a neurose não é apenas uma formação do inconsciente, mas produto da intersecção deste com a modernidade. O processo civilizatório doma as pulsões em impulsos de meta inibida, ou seja, eles são “anestesiados”, incorporados às grades do decoro social. Mas a repressão não ocorre sem um preço alto - o empobrecimento subjetivo/erótico/de prazer. A neurose acaba sendo a moeda paga para sair da barbárie. Portanto, [..] “se o neurótico possui sintomas, ele é também o sintoma vivo da cultura” (Assoun, 2012, p.15).
Neste período de seu desenvolvimento teórico Freud(1908) ainda se encontra dentro do pensamento iluminista, no paradigma da ciência moderna. Nesse contexto, ele irá enunciar a hipótese de que a psicanálise pode oferecer uma resposta resolutiva para o conflito indivíduo-cultura, podendo assim, aplacar os males gerados pela moral sexual civilizada (Freud, 1908). Essa hipótese será questionada na segunda tópica, sendo quebrada junto com o abandono da crença na racionalidade moderna e no iluminismo.
 Totem e Tabu (1913), Psicologia de Massas e análise do eu (1921), O Futuro de uma ilusão (1927), são trabalhos que problematizam as origens da cultura e da moralidade, a metapsicologia das instâncias ideais (normas, leis), o sentimento de culpa resultante dos laços de aculturamento, bem como o original desamparo do ser humano – Freud aprofundará a compreensão de que o ser humano não concebe a própria história isoladamente, necessitando sempre do vínculo afetivo do outro para viver e se desenvolver.
Em o Mal-estar na Cultura (1930), o impasse maior para a constituição de uma ordem social não será mais a oposição simplista entre exigências de trabalho pulsional que afligem o sujeito e as limitações impostas pela cultura, mas o próprio trabalho silencioso da pulsão de morte manifesta na agressividade, na força destrutivo-disjuntiva que existe em todo indivíduo. Inicialmente a vida é dispersão, o aparelho precisa realizar um intenso trabalho para capturar os processos psíquicos, ligando-os (pulsão de vida/princípio de prazer). A vida precisa ser conquistada, pois inicialmente ela tenderia ao inorgânico, exigindo do sujeito grande esforço para se manter e se desenvolver. Desta forma, a crença na cura do sofrimento em sociedade se mostrará insustentável. Pois dentro do sujeito existe uma força originária que o impele a destruição. Freud (1930) então quebra com as pretensões de uma harmonia possível entre indivíduo e sociedade, pois nada nos curará do desamparo e de nossa agressividade. Não existem fórmulas para aplacar os conflitos humanos. A ciência não pode curá-los. Cada um precisa construir as próprias saídas, cuidar dos espinhos, pois o ser humano é singular: “Não há conselhos que sirva a todos, cada um precisa experimentar a maneira particular pela qual pode se tornar feliz” (Freud, 1930).
Em Considerações atuais sobre a Guerra e a Morte (1915) Freud abandona a pretensão de colocar a psicanálise como salvadora dos conflitos da humanidade. Aliás, ele faz críticas ao próprio saber científico, entendido como promessa ilusória. Todo saber é falho. É justamente nesse ponto que subjaz a verdade do sujeito: onde ele se perde, tropeça na linguagem, onde o sujeito não pensa, ele é. O campo dos lapsos é o espaço da verdade do inconsciente, para além da razão.
Se existe estabilidade na situação dos porcos-espinhos ela é provisória e instável. Onde há vida, há conflito. Viver é se movimentar, insistir e resistir no e diante do desamparo. A morte e a doença, ao contrário, são paralisia. Nessa compreensão, o objetivo da psicanálise não seria de adaptar o sujeito, resolver suas desordens, abafando seus desejos.  Entre indivíduo e cultura não há distância intermediária pré-fixada que sirva de modelo.
Na alegoria de Schopenhauer a existência dos espinhos pode ser vista como uma barreira contra a simbiose - a fusão completa com o outro - mas ela também diz fundamentalmente do mais áspero que há em nós: a sexualidade e agressividade, bem como os caminhos pelos quais foram construídos seus destinos. Daí a complicação: como propor um modelo de harmonia sendo que tudo irá depender dos espinhos e do seu poder de incomodar os outros?
A psicanálise não pode ser um código para aplacar as incertezas humanas. Mas sim, um instrumento de crítica aos códigos. Guiado por essa compreensão, o ofício da interpretação é mover o sujeito, no sintoma ou na transferência, do lugar daquele que repete para o lugar daquele que cria. Para isso, o sujeito tem que renunciar à tendência, demasiada humana, de buscar amparo em substitutos do pai (moralidade), movimento que gera vínculos espinhosos, calcados em um supereu de culpa e mortificações.
Freud iniciou seu percurso com um Projeto e terminou com um Esboço. A Psicanálise para ele não foi uma teoria dogmática, pois a todo o momento problematizava-a. Sabia-a falha, incompleta. Ela não dá a receita para cada sujeito. Ela precisa ser criada e redescoberta a cada sessão. Nessa aventura, só não nos tornamos temerários, se a prática estiver bem fundamentada em uma teoria. O inconsciente permanece como eterna pergunta, onde sobra sempre um impossível de dizer. Esse vazio, pode ser uma ameaça de encontro com o nada, mas também é potência. Ele pode vir a ser (e é) o índice de criação, o que nos move. Do caos pulsional à palavra, do adverso narram-se os versos, ampliamos os lados: con-versamos! A análise abre caminhos, erotiza a vida, movimenta o circuito pulsional. Psicanalisar é inacabar.



*Samara Megume Rodrigues é psicóloga clínica, mestrando em Psicologia (PPI/UEM), idealizadora e colaboradora da Roda de Psicanálise


Referências Bibliográficas:

ASSOUN, P, L. Freud e as Ciências Sociais: Psicanálise e Teoria da Cultura. São Paulo: Edições Loypla, 2012.
FREUD, S. (1908). Moral Sexual Civilizada e Doença Nervosa Moderna. In:____Obras Psicologicas Completas de Sigmund Freud. Vol.IX. Rio de Janeiro: Imago, 2006.
FREUD, S. (1913) Totem e Tabu. In___Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol.XIII. Rio de Janeiro: Imago, 2006.
FREUD, S.(1915) Considerações atuais sobre a Guerra e a Morte. In:___Introdução ao Narcisismo, Ensaios de Metapsicologia e Outros textos. (P.C, de Souza, Trad.) São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
FREUD, S. (1921). Psicologia de massas e análise do eu. In:_______. Psicologia de massas e análise do eu e outros textos. (P.C, de Souza, Trad.) São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
FREUD, S. (1927) O Futuro de uma Ilusão. In:___Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol.XXI. Rio de Janeiro: Imago, 2006.
FREUD, S. (1930). O mal-estar na cultura. (R. Zwick, Trad.). Porto Alegre: L&PM, 2011.




segunda-feira, 10 de novembro de 2014

COMO SE FORMA UM PSICANALISTA?


por Isabelle Maurutto Schoffen*

Na época de Freud, a recomendação àqueles que desejassem trabalhar com a psicanálise era simplesmente começar a praticar, e conforme as dificuldades surgissem deveria iniciar-se uma análise pessoal, pois somente por meio dela o candidato a analista poderia se convencer da existência do inconsciente.
Essa falta de regras, ou um aparente laissez-faire, não corresponde em nada com as formações oferecidas pelas instituições ao longo da história do movimento psicanalítico, que de modo contrário, encerrou o candidato a analista em uma série de regras, como o período mínimo de 5 anos de formação incluindo cursos, atendimentos clínicos supervisionados, além da análise pessoal 4 a 5 vezes por semana em sessões de 50 minutos. Não se chegou a essa metodologia de transmissão da psicanálise sem seus motivos, assim como as críticas a este método também tem sua razão de existirem. Nos apoiaremos no texto Transferências Cruzadas: uma história da psicanálise e suas instituições de Daniel Kuperman, sobre a história do movimento psicanalítico e a relação entre a formação e a instituição, para problematizar e esclarecer questões sobre a transmissão da psicanálise.
De modo geral, Kuperman (1996) divide em quatro tempos a institucionalização do Movimento Psicanalítico em seu período freudiano. 1) Primeiro: a criação em 1902 da Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras, em que o próprio Freud convidava os candidatos a analista a participar destas reuniões, a transferência era o método e estava direcionada somente a figura de Freud. Neste período surgiram os pioneiros que ajudaram Freud a escrever os primeiros capítulos da história da psicanálise, como Abraham, Ferenczi, assim como seus primeiros dissidentes, Jung e Adler. 2) Segundo: a criação em 1910, no Congresso de Nuremberg, da IPA ( International Psychoanalitical Association). Freud intencionava neste período reorganizar a “economia e a dinâmica transferencial do universo psicanalítico”, ele precisava transferir sua posição de líder para alguém mais novo – “transferência das transferências na psicanálise” (Kuperman, 1996). A escolha foi Jung, indicado como o primeiro presidente da IPA, o que logo se mostrou um equívoco. A dissidência de Jung é considerada como um significativo “trauma” na história do movimento psicanalítico.
3) Terceiro: “um movimento transferencial de retorno a Freud realizado pelo próprio Freud” (Kuperman, 1996). Diante da expansão e reconhecimento desta nova ciência, e também da decepção diante das dissidências de Adler e Jung, Freud (1914) entende ser necessário criar uma instância que pudesse ditar o que é e o que não é psicanálise e quem pode se denominar psicanalista.
Julguei necessário formar uma associação oficial porque temia os abusos a que a psicanálise estaria sujeita logo que se tornasse popular. Deveria haver alguma sede cuja função seria declarar: ‘Todas essas tolices nada têm que ver com a análise; isto não é psicanálise’. Nas sessões dos grupos locais (que reunidos constituíram a associação internacional) seria ensinada a prática da psicanálise e seriam preparados médicos, cujas atividades recebiam assim uma espécie de garantia. Além disso, visto que a ciência oficial lançara um anátema solene contra a psicanálise e tinha declarado um boicote contra médicos e instituições que a praticassem, achei que seria conveniente os partidários da psicanálise se reunirem para uma troca de idéias amistosa, e para apoio mútuo. Isso, e nada mais, foi o que esperava alcançar com a fundação da “Associação Psicanalítica Internacional”. Mas tudo leva a crer que era querer demais. Do mesmo modo que os meus adversários iriam descobrir que não era possível lutar contra a corrente do novo movimento, assim também eu acabaria percebendo que este não seguiria a direção que eu desejava vê-lo seguir. (Freud,1914/1991, p.43)

Vemos que desde o inicio da formação da IPA, Freud está ciente de que ela poderia tomar caminhos que ele discordaria. Vale destacar que o objetivo da IPA era “promover e apoiar a ciência da psicanálise fundada por Freud, tanto como psicologia pura como em sua aplicação à medicina e às ciências mentais e cultivar o apoio mútuo entre os seus membros para que fossem desenvolvidos todos os esforços no sentido da aquisição e difusão de conhecimentos psicanalíticos” (Freud, 1914, p. 43).  Adler foi contra esse objetivo, temendo a “censura e restrições sobre a liberdade científica”. Assim, esse trecho descreve o que se repetiu na história do movimento psicanalítico e compreende os questionamentos que se faz ainda hoje.
Freud interpretou as dissidências de Jung e Adler como desvios do desenvolvimento interno da psicanálise: “ambos são infantis, têm resistência à psicanálise e querem tomar o lugar de Freud” (Kuperman,1996). 
Em 1912 para evitar casos como o de Jung se repetisse – em que complexos pessoais não adulterassem a teoria pura – foi a criado o Comitê Secreto, uma sugestão de Ferenczi. A ideia era que um grupo de iniciados, analisados pelo próprio Freud, seriam os responsáveis por transmitir aos iniciantes a psicanálise sem adulterações. Nas palavras de Kuperman “Esta proposta revela, in status nascendi e a um só tempo, o paradigma da formação psicanalítica e a origem de seu malogro: o saber psicanalítico é transmitido fundamentalmente a partir da experiência de análise pessoal, e portanto, sua transmissão é regulada pela transferência”. Foi o fundador do Comitê, o próprio Ferenczi que mais tarde denunciaria os efeitos perversos e o processo de mediocrização produzido pela formação psicanalítica que, mesmo tendo a transferência como método de transmissão, passou a ser um instrumento de controle e padronização da formação.
4) Quarto tempo: Freud sai de cena e não mais é o centro das decisões: “A característica principal desse período será a de que, em um arranjo semelhante ao do assassinato do pai em Totem e Tabu, ninguém mais poderá ocupar o seu lugar, ou seja, a psicanálise ingressa na era burocrática, onde a lei é dura, mas é a lei, igual para todos. E o perfil do futuro psicanalista deverá enquadrar-se nesse esquema” (Kuperman, 1996).
Agora já temos condições de iniciar algumas reflexões. Freud ao longo de toda a sua obra coloca a transferência e a resistência como centrais nessa nova ciência e técnica. “Qualquer linha que reconheça esses dois fatos (transferência e resistência) e os tome como ponto de partida de seu trabalho, tem o direito de chamar-se psicanálise, mesmo que chegue a resultados diferentes dos meus” (Freud, 1914, p.26). O que nos chama a atenção nas colocações de Kuperman é a dificuldade e complexibilidade do uso desse método quando transposto do setting analítico para as instituições de transmissão por toda a história do movimento psicanalítico e até os dias de hoje.
Essa relação hierárquica que compõe e cena analista-analisando que é necessária para o início do tratamento deve ser desfeita ao longo do mesmo para que o analista não se coloque como uma ilusão substituta do desejo infantil de onipotência do paciente. A posição que o analista ocupa – o lugar daquele que se supõem deter o saber – na fantasia do analisando, deve ser temporária, conforme a análise vai transcorrendo o analisando se dá conta da sua fantasia de onipotência e consegue renunciar esse desejo, compreendendo-se castrado como todas as pessoas inclusive o analista. Enfim, o analista ocupa esse lugar de onipotência sabendo-se castrado, até que o paciente não precise mais dessa fantasia para suportar sua própria castração.
Mesmo no setting analítico suportar esse lugar de depositário do desejo do outro, sem refletir sobre nossos próprios desejos não é nada fácil, talvez quase impossível. E isso significa que na maioria das vezes podemos ser pegos em nosso próprio desejo narcísico de ocupar o lugar do mestre, ou o lugar de Freud, ou melhor, o lugar do pai totêmico. Somente tendo consciência desse desejo é possível reparar, sempre há tempo de construir um bom trabalho com nossos pacientes. A história do movimento psicanalítico mostra exatamente que nem mesmo os psicanalistas, e pode-se se dizer até mesmo o próprio pai da Psicanálise, não tenha caído nas armadilhas de seu inconsciente. Freud (1913/2012) nos alertou também que o desejo de ser Deus, ou de ocupar o lugar do pai totêmico, aponta para a dificuldade no indivíduo em aceitar a castração o que o mantém preso a várias formas de ilusão, sendo a ciência também pode vir a ser uma delas. Defender e manter a crença da onipotência é ignorar e negar a força implacável, ambivalente e indestrutível das pulsões, do inconsciente. Ninguém está imune.
A questão então é: Como transmitir a psicanálise, tendo a transferência e a resistência como método legítimo? Como evitar saídas narcísicas que engessam o poder criativo dos novos psicanalistas, como evitar que as transferências não sejam manipuladas para manter a relação de poder na transmissão do conhecimento psicanalítico que aceitam somente os que se adaptam às regras da instituição?
Não temos a intenção de responder a essas questões, mas apenas provocá-los a buscar mais informação a respeito dessa discussão e descobrir quais as saídas que os psicanalistas contemporâneos estão buscando para assegurar o método legítimo da psicanálise – a transferência – sem reproduzir a lógica da adaptação e obediência.


*Isabelle Maurutto Schoffen é psicóloga clínica, mestre em Psicologia pela Universidade Estadual de Maringá e idealizadora e colaboradora da Roda de Psicanálise.

* Imagem: Sigmund Freud, G. Stanley Hall, Carl Jung, Abraham A.Brill, Ernest Jones, Sándor Ferenczi. Setembro de 1909 na frente da Clark University

Referências

Kuperman, D (1996). Transferências Cruzadas: Uma história da psicanálise e suas instituições. Rio de Janeiro, Revan.
Freud, S. (1991). Contribución a la historia Del movimiento psicoanalítico. In Obras completas de Sigmund Freud (José Luis Etcheverry, trad. , Vol, 14. Buenos Aires: Amorrortu Editores (Trabalho original publicado em 1914).
Freud, S. (2012). Totem e Tabu. In Obras Completas de Sigmund Freud (Paulo César de Sousa, Trad. Vol. 11, pp. 14-244). São Paulo: Companhia das Letras (Original publicado em 1913) 


quinta-feira, 28 de agosto de 2014

METAPSICOLOGIA E O MISTERIOSO REINO ENTRE O FÍSICO E O MENTAL

Por Aline Sanches*

Este texto tem o objetivo de apresentar a metapsicologia como um modo original de articular os processos psicológicos e os fundamentos biológicos para fundar uma nova ciência, a psicanálise. Freud considerava que os conceitos de inconsciente, pulsão, recalque, entre outros, eram indispensáveis para a psicanálise, a despeito das imprecisões e dificuldades que rondavam tais noções. Afinal, para desvendar o enigma das psicopatologias, seria necessário ultrapassar e ampliar simultaneamente: 1) os limites da psicologia clássica – cujo paradigma racionalista a orientava exclusivamente para o estudo das faculdades mentais conscientes “normais”, como a sensação, a percepção, a atenção, a memória, a cognição..., pouco se interessando por fenômenos relacionados à loucura; e 2) os limites da psiquiatria, que se dividia entre hipóteses explicativas orgânicas (impossíveis de serem demonstradas anatomicamente, pois nada se encontrava de anormal nos cérebros dos loucos) e hipóteses explicativas morais (o que deixava a psiquiatria em uma distância constrangedora da cientificidade médica).
Assim, para construir um edifício teórico coerente para as novas experiências psicanalíticas, Freud muitas vezes entregou-se a “especulações”, sem deixar de alertar para a ligação íntima entre suas teorias e a observação dos fenômenos clínicos.
Não gostaria de dar a impressão de que durante esse último período de meu trabalho voltei as costas à observação de pacientes e me entreguei inteiramente à especulação. Ao contrário, sempre fiquei no mais íntimo contato com o material analítico e jamais deixei de trabalhar em pontos detalhados de importância clínica ou técnica. (FREUD, 1925 [1924], p.62).
De forma que, ao longo de toda sua obra, os esforços para compreender a natureza e os processos que regem o funcionamento da vida psíquica, seja normal ou patológica, permaneceram costurados com a prática, e por isso mesmo, eram passíveis de sofrer renovações contínuas.
Assim foi desde que, no final do século XIX, sua tentativa de explicar a histeria levou-o a adotar a hipótese de que processos psíquicos inconscientes estavam na base da formação dos sintomas psicopatológicos. Esta hipótese tornou-se o disparador tanto de uma prática clínica diferenciada, quando da construção de um arcabouço teórico coerente com essa nova proposta.
Ao conjunto de modelos conceituais inferidos da experiência, Freud chamou de metapsicologia. Logo, o modelo de um aparelho psíquico dividido em instâncias, a teoria das pulsões, o processo do recalque, são hipóteses pertencentes ao registro de uma investigação teórica que pretende situar os conceitos básicos do empreendimento psicanalítico. O longo trecho abaixo, escrito em 1914, oferece uma ideia da posição dos conceitos metapsicológicos na psicanálise.
É verdade que noções como a de libido do Eu, energia pulsional do Eu e outras não são nem claramente apreensíveis, nem suficientemente ricas de conteúdo; assim, uma teoria especulativa a respeito das relações em questão teria sobretudo por meta formular conceitos rigorosamente delimitados que lhes servissem de fundamento. Todavia, acredito ser essa a diferença entre uma teoria especulativa e uma ciência construída sobre a interpretação de dados empíricos. Esta última não invejará da especulação o privilégio de uma fundamentação impecável e logicamente inatacável. Ao contrario, a ciência se dará por satisfeita com ideias básicas, nebulosas e ainda difíceis de visualizar, sempre, porém, com a esperança de mais adiante, no decorrer do seu desenvolvimento, vir a apreender tais ideias com mais clareza, mostrando-se ainda disposta a eventualmente trocá-las por outras. Afinal, o fundamento da ciência não são essas ideias, mas sim a observação pura sobre a qual tudo repousa. Elas não são a base, mas o topo do edifício, e podem, sem prejuízo, ser substituídas e removidas. Atualmente, vivemos a mesma situação na física, cujas concepções básicas sobre matéria, centros de força, atração e outros não são menos questionáveis do que as concepções correspondentes na psicanálise. (FREUD, 1914, p.100). 
     Em vários momentos, Freud destaca que o caráter indeterminado e provisório de seus conceitos metapsicológicos não os torna menos válido. Pelo contrário, eles são fundamentais e indispensáveis na medida em que se constituem como os próprios instrumentos “científicos” utilizados na análise do material empírico. Mas estes instrumentos não podem ser rígidos e fixos, devendo se transformar toda vez que a experiência o exigir. Afinal, mais do que fornecer bases para as observações clínicas, as teorias são resultados que quando não são aperfeiçoados tornam-se estéreis.
Enquanto elas [as ideias] permanecem nesse estado [de indefinição], podemos concordar sobre seu significado remetendo-nos repetidamente ao material experiencial a partir do qual elas aparentemente foram derivadas; contudo, na realidade, esse material já estava subordinado a elas. (...) o progresso do conhecimento não suporta que tais definições sejam rígidas, e como ilustra de modo admirável o exemplo da física, mesmo os “conceitos básicos” que já foram fixados em definições também sofrem uma constante modificação de conteúdo. (FREUD, 1915, p.145).
      Entendida neste contexto, a metapsicologia tornou-se para Freud um aspecto essencial desta psicanálise que estava a se inventar, com a função não tanto de formular teses, mas de organizar e justificar o que deriva da experiência clínica.
      Freud fez suas primeiras menções ao termo metapsicologia em cartas para Fliess, no ano de 1896: “tenho-me ocupado continuamente com a psicologia – na verdade, com a metapsicologia” (MASSON, 1986, p.173). Um ano antes, Freud havia escrito o seu projeto de uma “psicologia científico-naturalista”, assentado sob princípios biológicos e mecânicos do sistema nervoso. Trata-se de uma psicologia que recusa a identidade entre o psíquico e o consciente e propõe que a explicação para os processos neuronais sejam buscados em “processos psíquicos inconscientes”. Inconsciente, neste caso, é um adjetivo para os processos fisiológicos que não podem ser acessados direta ou imediatamente pelos sentidos. Como esclarece Gabbi Jr (1995, p.123): “o naturalismo de Freud leva-o a conceber processos que, como os físicos, devem ser inferidos, visto que não são imediatamente apreendidos pela consciência”.
        Pois bem, a hipótese destes processos psíquicos inconscientes como determinantes causais dos sintomas patológicos, acompanha-se de outras, ou seja, que o funcionamento neuronal transcende os processos físico-químicos e que obedece a leis diferentes daquelas de seus componentes materiais. Abre-se então uma área inédita de investigação que exige de Freud instrumentos e métodos específicos, para além do físico e do orgânico, o que a neurologia ou a biologia não tinha condições de fornecer. Tampouco a psicologia clássica. A metapsicologia nasce a partir dessa exigência de se dirigir a investigação psicológica, independentemente da biologia, para este novo campo que se situa entre a esfera orgânica e psíquica.
Além disso, a psicanálise passa a ganhar contornos próprios quando abre mão da referência direta à biologia. Mas para Freud, essa independência da biologia não significará uma renúncia aos pressupostos biológicos e esses permanecerão como o fundamento [inacessível] da vida psíquica por toda sua obra.
Senhores, a psicanálise é injustamente acusada de apresentar teorias puramente psicológicas para problemas patológicos. (...) Os psicanalistas nunca se esquecem de que o psíquico se baseia no orgânico, conquanto seu trabalho só os possa conduzir até essa base, e não além. (1910, p.226).
       Embora Freud deixe de se apoiar tão explicitamente em um modelo neuropsicológico, este permaneceu como inspiração para o desenvolvimento de sua metapsicologia. Apesar de seus esforços para que as considerações biológicas não dominassem o campo psicanalítico, um dos conceitos mais fundamentais, a pulsão, sempre foi situada na fronteira entre o psíquico e o somático, “como um conceito fronteiriço entre as esferas da psicologia e da biologia” (FREUD, 1913, p.184).
     A metapsicologia enquanto um sistema teórico-científico para abordar a misteriosa articulação entre o orgânico e o mental permanece um caminho interessante e original para a superação de dicotomias infrutíferas. A despeito de existirem psicanalistas excessivamente técnicos que insistem em questionar: mas na prática, para que isto serve? 
REFERÊNCIAS
BIRMAN, J. Freud e a filosofia. Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 2003
FREUD, S. (1910) A concepção psicanalítica da perturbação psicogênica da visão. Rio de Janeiro, Imago, 1996.
______. (1913) O interesse científico da psicanálise. Rio de Janeiro, Imago, 1996.
______. (1914) À guisa de introdução ao narcisismo. In: ______. Escritos sobre a psicologia do inconsciente. Vol.I Rio de Janeiro, Imago, 2004.
______. (1915) Pulsões e destinos da pulsão.In: ______. Escritos sobre a psicologia do inconsciente. Vol.I Rio de Janeiro, Imago, 2004.
______. (1925[1924]) Um estudo autobiográfico. Rio de Janeiro, Imago, 1996.
GABBI, O.F. Notas críticas sobre Entwurf Einer Psychologie. Projeto de uma psicologia. Rio de janeiro: Imago, 1995.
MASSON, J.M. (org) A correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess. Rio de Janeiro: Imago, 1986. 

terça-feira, 24 de junho de 2014

O INQUIETANTE ESTRANHO EM NÓS

Por Samara Megume Rodrigues*

Quem nunca foi tomado por uma sensação de estranheza diante dos próprios atos e das circunstâncias da vida? Algo que atrai e seduz, mas ao mesmo tempo também choca, provocando repulsa. Essa sensação inquietante está presente massivamente em filmes, na literatura fantástica, nas artes plásticas sombrias e também está em nosso cotidiano. Trata-se daquela sensação que surge quando, por exemplo, em um curto intervalo de tempo deparamo-nos com situações ligadas a um mesmo número ou a um mesmo nome de pessoa – algo que, principalmente para os indivíduos mais supersticiosos, pode adquirir um ar secreto de sina ou maldição. Em diferente grau, é a mesma sensação despertada pelo dito “mau-olhado”, agouro, em que tudo parece dar errado.  Ou ainda esse sinistro que aparece quando temos dúvida se um ser animado está realmente vivo ou, ao contrário, se um objeto aparentemente inerte não seria, na verdade, portador de vida. Essa sensação foi estudada por Freud (1919) e nomeada de Das Unheimliche, que foi traduzida em português como O Inquietante / O Estranho, em espanhol Lo Siniestro / Lo ominoso.
No artigo O Inquietante (1919), Freud faz uma análise psicanalítica no terreno da estética, pelo conto “O Homem de Areia” e também do romance “Os elixires do diabo”, ambos do escritor de E.T.A. Hoffmann.  No primeiro conto, Hoffmann constrói a personagem Olímpia, que é destaque por sua graça, beleza e aparente vivacidade, o que a torna objeto de paixão do personagem principal, Nathaniel. Com o desenrolar da história o personagem descobre que Olímpia não passa de uma boneca, um autômato, fato que provoca certa estranheza no leitor. Não é apenas a personagem Olímpia que causa essa sensação, no conto Nathaniel é um personagem que possui um delírio de associação da morte de seu pai com uma figura mítica de sua infância: O Homem de Areia. Esse por sua vez corresponde a uma espécie de “bicho papão” da cultura alemã, figura que serve para auxiliar as mães a mandarem seus filhos para cama sob ameaça de terem seus olhos primeiramente feridos com areia e depois arrancados e roubados. No conto paira a dúvida sobre a existência real ou não do Homem de Areia.
Freud (1919) faz uma análise etimológica da palavra Unheimlich, bem como suas diferentes expressões em outros idiomas, como o latim, o grego, o inglês, o francês e o espanhol. Interessantemente, ele demonstra que em seus sinônimos essa palavra apresenta paradoxos, sendo que em variadas matizes ela coincide com seu oposto imediato, Heimlich (familiar/conhecido). Assim, Freud (1919) conclui que sempre atrás de algo aparentemente incompreensível ou atemorizante se esconde algo familiar, muito conhecido. Para que algo seja inquietante, não basta que ele seja diferente do convencional, mas que tenha sido algo anteriormente familiar. Ou seja, Freud (1919) conclui que existe sempre uma sombra no aparentemente conhecido, um inominável que foi afastado, deslocado (reprimido) da consciência. Citando Schelling “Unheimlich seria tudo o que deveria permanecer secreto, oculto, mas apareceu”. (Freud, 1919, p.338).
O desassossego causado pela dúvida de seres inanimados terem vida remonta a infância, a fase de desenvolvimento em que de fato a criança não consegue distinguir ser vivo de ser não vivo – em que ela dá vida aos seus brinquedos. A criança para conseguir expressar o que sente, transfere para seus brinquedos e fantasmas seus medos, amores e angústias.  Assim como no conto o medo de Nathaniel de perder os olhos representa suas culpas infantis, que fazem com que ele tema sofrer retaliações: perda dos olhos (castração).
No romance “Os elixires do diabo”, de Hoffmann (1815-16), Freud (1919) mostra outra fonte intensa do inquietante. Trata-se do duplo ou sósia, o surgimento de pessoas que, pela aparência igual, devem ser consideradas idênticas, em que pode ocorrer a intensificação desse vínculo entre os sujeitos pela passagem de processos psíquicos de uma para outra (telepatia) – de modo que uma pessoa possui também o saber, e os sentimentos e vivências das outras pessoas. Por vezes a identificação com o duplo de si pode levar a confusão, ocorrendo a duplicação, divisão e permutação do Eu.  A compreensão popular de alma imortal também representa o duplo, como uma medida de segurança diante da sempre eminente ameaça de destruição do Eu pela morte. Freud (1919) irá demostrar que esse duplo trata-se da formação de uma instância psíquica que, embora gerada a partir do Eu, dele se apartaria, exercendo sobre si uma atividade de observação e censura: a consciência moral – termo que será um prenúncio do conceito de Supereu, após os trabalhos de Além do Princípio de Prazer (1920) e O eu e o isso (1923).
O inquietante é a sensação causada pela percepção da compulsão à repetição, em diferentes situações. Como quando identificamos traços faciais entre pessoas, vicissitudes, nomes, situações de nossa vida, que se repetem. Trata-se do eterno retorno do mesmo, a aflitiva sensação de que existe uma determinação oculta em nossa vida. Freud (1919) demostra que essa é justamente a natureza própria da pulsão; cujo poder de subjugar nossa busca de realização e prazer confere um caráter demoníaco a certos aspectos de nossa vida anímica.
Nas diversas manifestações do estranho, em maior ou menor grau, paira uma relação íntima com a nossa onipotência de pensamento, pois cremos que o pensamento por si só é capaz de determinar as ocorrências da realidade. Freud (1919) analisa as raízes individuais e sociais dessa onipotência.
 O que é extremamente rico e inovador nesse trabalho de Freud é a forma como ele aborda o estranho (diferente) – que nunca é visto como um exato estrangeiro, mas detecta a estranheza do inconsciente, como aquilo que é inominável de nós mesmos. Desta forma, o estranho só nos choca, porque toca no sinistro que vive em nós. Como na música do Pink Floyd “Brain Damage”, o lunático que identificamos fora, na verdade vive em nossa mente, ele é o próprio Dark side of the moon, o nosso lado obscuro. Essa aflitiva estranheza é também a nossa! Daí o perigo de projetarmos o estrangeiro no outro, que encarnará os próprios conflitos. Assim, a psicanálise demonstra que todos nós somos estrangeiros e ironicamente habitamos o mesmo inquietante lugar: a condição humana de desamparo – que é a condição última de nosso ser conosco e de nosso ser com o outro.
O Unheimlich surge desse entremeio, o Eu e o outro, em que algo não pode ser nomeado e por isso os limites frágeis do nosso eu parecem ser extrapolados, o que é fonte do sobrenatural. Esse algo estranho parece nunca poder ser verbalizado, mas por vezes aparece simbolizado em formas belíssimas, como nos filmes de Alfred Hitchcock ou na literatura magnífica de Edgar Allan Poe.
Que ousadia - a psicanálise se aventura a adentrar esse estranho lugar! Busca dizer o indizível, por isso Freud (1925,1937) escreveu que ela é uma profissão impossível!  Aliás, como é inquietante a figura do analista. É ainda mais estranho a existência do desejo do analisando que, a partir do divã ousa (se) perguntar. Por meio desse encontro, o sujeito que pergunta pode vir a se dar conta que esse outro a quem ele destina ódio não passa de um duplo de si mesmo. Por meio da transferência, ele pode vir a ser sujeito consciente de suas próprias diferenças, e sinta-se mais a vontade para conviver com as diferenças alheias. Somente escutando o monstro/louco que há em nós podemos nos implicar com os seus/nossos inquietantes desejos, com nossa agressividade e sexualidade, revivendo (e não só rememorando) esse outro de si mesmo. Nos permitindo assim dar novo estatuto à vida, criando possibilidades diante do impossível que é o inconsciente, readquirindo sua dimensão poética e de potência criativa.


*Samara Megume Rodrigues é psicóloga clínica, mestranda em Psicologia, colaboradora e idealizadora da Roda de Psicanálise. 

** Imagem: gravura de Jacques Callot, "Le Deux  Pantalons" , de 1616.  


Referências Bibliográficas 
Freud, S. (2010) O Inquietante. In: Obras Completas de Sigmund (Paulo Cesar  Soura, Trad. Vol 14) São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Originalmente publicado em 1919)
Freud, S. (1996) Prefácio a Juventude desorientada  de Aichhom. In: Edição Standar Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XIX. Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1925)
Freud, S. (1996) Análise terminável e interminável. Edição Standar Brasileira das Obras Psicológicas Completas     de Sigmund Freud, vol. XXIII. Rio de Janeiro: Imago(Originalmente publicado em 1937)




 




sábado, 17 de maio de 2014

QUEREMOS JUSTIÇA?


 Por Isabelle Maurutto Schoffen*

Quem nunca foi acometido por um sentimento de injustiça? Este sentimento simultaneamente leva a outros, como ódio, raiva, inveja e ciúme. A relação que antes era de amor, passa a ser de rivalidade. Como é possível haver dentro de nós sentimentos tão distintos e opostos direcionados a uma mesma pessoa? Eles estranhamente existem, nos tomam completamente e intensamente. Mas o que é justo? Será que o que é justo para uma pessoa é necessariamente justo para a outra?
A palavra justiça existe necessariamente em função da lei, do poder judiciário, que resguarda igualmente, por princípio, os direitos e deveres de todos. No entanto, contrariando o significado da palavra “justiça” – que se refere à igualdade, isonomia, a imparcialidade – cada um constrói o seu próprio sentido para palavra justiça, enfim, do que é justo para si.  
Estamos diante de dois contextos que aparentam serem “mundos” completamente diferentes: o social e o individual. Para a psicanálise essa dicotomia não existe “a psicologia individual é também, desde o início, psicologia social, num sentido ampliado, mas inteiramente justificado” (Freud, 1921/2011, p.10), isto é, não há anterioridade de uma psicologia sobre a outra, o que existe é simultaneidade. Freud justifica tal tese a partir da compreensão de que tanto a mente quanto à sociedade-cultura são formadas ao mesmo tempo. E vai além, ao anunciar que a sociedade foi fundada em um crime, mas não por um crime qualquer, e sim em por um crime coletivo. Enfim, a justiça é fruto de um crime, de um ato violento.
Em Totem e Tabu Freud (1913/2012) constrói seu “mito científico” – como ele mesmo denominou – sobre as origens da cultura. Apoiado na observação das cerimônias de celebração dos povos primitivos e influenciado especialmente pela teoria da horda primeva de Darwin, Freud (1913/2012) narra a “origem” de um estado originário da sociedade que de fato nunca pôde ser observado, mas que a experiência clínica com neuróticos pode elucidar: o de que os desejos de matar o pai e cometer o incesto ainda persistem (reprimidos) no homem civilizado.
O mito se inicia com a suposição de Darwin de que no início havia lugar apenas para “um pai violento, ciumento, que guarda todas as mulheres para si e expulsa os filhos machos quando crescem; eis o que ali se acha” (Freud, 1913/2012, p. 206). Assim, supõe Freud, uma horda primitiva dominada por um macho tirano que expulsou os filhos machos, para evitar que tivessem relações sexuais com as mulheres. Os irmãos frustrados e subjugados pelo pai retornaram a horda, e por temerem e invejarem o modelo paterno, juntos, mataram e devoram o pai tirano – fizeram na coletividade o que não poderiam fazer individualmente. Os irmãos, ao celebrarem a morte do pai (festim totêmico), comiam-lhe a carne e assim se identificaram com ele e entre si, adquirindo sua força e seus atributos, que eram invejados admirados, e assim, se tornaram irmãos de sangue. No entanto, ao se livrarem do pai, os impulsos ambivalentes reprimidos, os impulsos amorosos, podiam vir à tona e retornar em forma de remorso, de um sentimento de culpa que coincidia com o remorso sentido por todo o grupo.  Depois do ato, os irmãos se deram conta de que cada um deles, em seu íntimo, em segredo, desejava o lugar do pai, ser o único a ter seus privilégios e poderes, e compreenderam que, se continuassem a realizar esse desejo, acabariam se exterminando. Por amor ao pai renunciaram o lugar dele, e pela manutenção da nova organização social, renunciaram à satisfação incestuosa, instaurando assim a exogamia e instituiu-se o clã fraterno fundado em laços de sangue. Para Freud, portanto, a consciência moral humana teve início nestes dois principais tabus, o parricídio e o incesto, que confere o núcleo da organização social.
O complexo de Édipo ou complexo parental é a representação do pacto do filho com o pai da horda primeva, portanto, busca explicar a aceitação de uma lei comum a todos os homens, que regula a postergação e substituição da realização dos desejos primitivos de matar o pai e desejar a mãe (incesto), constituindo então o núcleo das neuroses. Nas neuroses o filho por amor e temor ao pai, renuncia ao amor da mãe, concordando em substituir seu primeiro objeto de amor por outro permitido, desta forma aceitando a lei, a cultura. No entanto, nos neuróticos, diferentemente dos povos primitivos, seus desejos tem origem apenas na realidade psíquica, e não da realidade concreta, os neuróticos matam o pai apenas em pensamento. Freud parafraseia Goethe, “no princípio foi o ato” no sentido de que o homem civilizado se construiu historicamente enquanto consequência de um ato e suas marcas, enfim, surgiu de um crime, o assassinato do pai primevo, e que foi de um crime coletivo, uma transgressão coletiva que se fundou a civilização em torno de um pai morto ainda mais poderoso que vivo e que enquanto um ideal, um símbolo, um mito, representando a própria lei.
O que temos então como base da sociedade-cultura é a ambivalência de sentimentos (amor e ódio) em cada indivíduo. Esses sentimentos, conforme Freud nos ensinou são inconscientes, portanto, indestrutíveis e não se trata de um momento histórico superado, eles estão conservados em nossa constituição psíquica e não cessam até encontrar satisfação. Portanto, carregamos dentro de nós – cada um em seu íntimo – a disposição para a violência, e como tentativa de barrar esses desejos instituímos a lei que regula as satisfações parciais possíveis, esta renúncia é que possibilitou a constituição do tecido social. Podemos então dizer que “a estrutura social é fruto, é resultado de um ataque levado a cabo por indivíduos sexualmente excitados” (Monzani, 2011, p. 245). Conclui Monzani que “não se trata da consciência moral levar à renúncia pulsional, mas, o contrário: a renúncia pulsional é que cria a consciência moral” (p. 243).
A justiça, portanto, foi instituída pela coletividade (irmãos) depois do crime cometido e do arrependimento que assegurou o lugar do pai – o lugar do privilégio, da exceção, do poder – por meio da lei. Assim, ninguém mais pode tomar o lugar do pai, e todos são igualmente proibidos de tais privilégios. Aqui se observa um entendimento equivocado da palavra justiça, o que é justo não é o indivíduo ter o que deseja – por exemplo, o amor dos pais, ou do parceiro só para si – justiça é assegurar que ninguém tenha mais amor do que o outro, que o amor seja igual, sem privilégios. Quando lutamos pela justiça, estamos lutando para assegurar que ninguém realize o seu desejo íntimo de onipotência, de exclusividade.
A fraternidade, portanto, está ligada mais aos sentimentos egoísticos – que os indivíduos compartilham entre si – do que o sentimento de amor. O amor está ligado à renúncia dessas pulsões egoísticas. O amor fraterno é mantido nos laços entre os homens na medida em que asseguramos que a exceção não seja aplicada a ninguém, caso isso ocorra, o que teremos é a nossa agressividade exposta, a violência que nos é intrínseca e que um dia foi reprimida retornará em ato de atrocidades e violência.

Referências
Freud, S. (2011). Psicologia das massas e análise o eu. In Obras Completas de Sigmund Freud (Paulo César de Sousa, Trad. Vol. 15, pp. 13-113). São Paulo: Companhia das Letras (Original publicado em 1921)

Freud, S. (2012). Totem e Tabu. In Obras Completas de Sigmund Freud (Paulo César de Sousa, Trad. Vol. 11, pp. 14-244). São Paulo: Companhia das Letras (Original publicado em 1913) 

Monzani, L. R. (2011). Totem e tabu: uma revisão. Revista de Filosofia Aurora, Curitiba, v. 23, n. 33, p. 243-255, jul./dez.

* Imagem de Hans Von Aachen "O Triunfo da Justiça"

Isabelle Maurutto Schoffen é psicóloga clínica, mestre em Psicologia pela Universidade Estadual de Maringá, colaboradora e idealizadora da Roda de Psicanálise: teoria, clínica e cultura. 


terça-feira, 18 de março de 2014

GRUPO DE ESTUDOS: Deleuze e a Psicanálise


DELEUZE E A PSICANÁLISE

Realizado por Aline Sanches*


OBJETIVOS: voltar-se para três textos fundamentais de Deleuze - Apresentação de Sacher-Masoch (1967), Diferença e Repetição (1968) e Lógica do Sentido (1969) - de maneira cronológica e detalhada, dedicando-se a explorar os pontos específicos de seu debate com a psicanálise. Buscaremos apresentar a complexidade de seu pensamento, de difícil acesso para quem não é familiarizado com a filosofia, ao mesmo tempo em que analisaremos os textos psicanalíticos que despertaram sua admiração e sua crítica.



ARGUMENTO: considerado um dos mais importantes filósofos do século XX, o francês Gilles Deleuze manteve um intenso diálogo com a psicanálise em determinado período de sua obra, sobretudo a partir de 1967. Embora tenha se tornado célebre e polêmico entre o meio psicanalítico pela publicação de O Anti-Édipo (1972) com Guattari, Deleuze já havia realizado importantes incursões pelas obras de Freud, Klein e Lacan. O debate que Deleuze estabelece com a psicanálise nos três textos acima citados são extremamente férteis tanto para fazer avançar a teoria psicanalítica quanto sua filosofia da diferença. Deleuze demonstra um profundo conhecimento da metapsicologia e da psicanálise em seu desenvolvimento global, o que se verifica tanto pela amplitude dos temas abordados – o sadomasoquismo, o princípio de prazer, a compulsão à repetição, o desenvolvimento psicossexual, entre outros... – quanto pela diversidade dos autores citados. Em seus textos, nota-se que a psicanálise é objeto de críticas, mas também é sua aliada na investigação e desenvolvimento de alguns temas caros ao seu próprio projeto filosófico. Cabe, portanto, compreendermos o que Deleuze critica, o que ele valoriza, e quais propostas ele dirige ao campo psicanalítico.

ROTEIRO DE ESTUDOS:


1)  Apresentação de Sacher-Masoch
- O impossível conceito de sadomasoquismo
- O projeto “crítica e clínica”: a literatura como ferramenta diagnóstica na psicanálise
- O modelo patriarcal e a superioridade masculina nos fundamentos das interpretações freudianas: a incompreensão do masoquismo e do feminino em Freud.
- A função materna no masoquismo
- Eros e Tânatos, princípios transcendentais: a distinção entre instinto e pulsão. Como Deleuze lê o texto freudiano Além do princípio de prazer (1920).

2) Diferença e repetição
- As três sínteses constitutivas do inconsciente
- Hume e Freud: o delírio como solo, a imposição secundária da organização psíquica
- Bergson e a psicanálise: objetos virtuais parciais e pequenos eus larvares
- Duas concepções da repetição na teoria freudiana
- O instinto de morte é a força que engendra o pensar

3) Lógica do sentido
- Estruturalismo e psicanálise
- O não-senso: motor do pensamento, mas também de sua destruição. Lewis Carroll e Artaud, entre a arte e a esquizofrenia
- Corpo despedaçado e corpo sem órgãos: o registro da profundidade, entre Klein e Artaud.
- O desenvolvimento psicossexual, entre a psicose, neurose e perversão.


PÚBLICO-ALVO: Voltado para graduados ou alunos de psicologia, que possuem um conhecimento razoável de psicanálise e que se interessam pela interlocução com a filosofia, sobretudo pelas críticas e propostas que Deleuze dirige ao campo psicanalítico.

INSCRIÇÕES: enviar email até 05/04 para psicoaline@yahoo.com.br com nome completo e telefone, descrevendo brevemente seu percurso acadêmico. Informações adicionais, como local, datas, e maiores informações, serão disponibilizadas por email aos interessados.

VALOR: R$ 360,00 por 08 encontros (R$ 45,00 por encontro).

OBSERVAÇÕES: Grupo limitado a 8 participantes, com início previsto para abril/2014. Serão realizados encontros mensais, com duração de 2hs, provavelmente no sábado à tarde ou quarta-feira à noite. 


*Aline Sanches é psicóloga pela UNESP/Assis, mestre e doutora em Filosofia pela UFSCar e doutora em Psicopatologia e Psicanálise pela Paris VII. Dedica-se desde 2003 ao estudo simultâneo da psicanálise e da filosofia de Gilles Deleuze. Mais informações em: http://lattes.cnpq.br/0570819174001324