quarta-feira, 17 de julho de 2013

Um pouco de ilusão: sobre ideais e idealizações.

Por muitos anos vários intelectuais acreditavam que vivíamos em uma época de morte das utopias, em que parecia não ser possível visualizar uma mudança social e cultural de nossa época. No entanto desde 2008 e mais massivamente em 2011 estamos acompanhamos o desenrolar de uma onda de protestos pelo mundo. A intensa eclosão simultânea e contagiosa de protestos que, apesar de pautarem-se em questões regionais, expressam uma indignação social. Ditaduras foram derrubadas na Tunísia, no Egito, na Líbia, no Iêmem. Na Europa ocorreram ocupações e greves na Espanha, Portugal, Grécia, Londres, Chile, em Wall Street, nos EUA, Rússia, e as atuais manifestações no Brasil. Ao ponto de muitos chegarem a afirmar que enfim “o povo acordou”. Mas acordou de que? Das ilusões que nos mantinham presos as opressões? Quais ilusões? Quais opressões?
Como analisado por Freud (1930) uma cota de mal-estar social é intrínseca a civilização, visto que para viver em sociedade abrimos mão da realização de muitos desejos. Abrimos mão de parte de nossa sexualidade e agressividade em troca do que a civilização tem para nos oferecer: segurança, cultura, a transmissão dos bens socialmente construídos pelas gerações anteriores a nossa. O preço parece justo? Deveria ser, mas muitas vezes parece muito caro, já que investimos tanta energia no trabalho, no convívio social, que a dívida da sociedade perante esse investimento fica muito alta.
 Encontramos-nos dentro de um sistema que, via de regra, expropria, rouba nossas forças de trabalho, nossa energia criativa, transformando as relações humanas em meras mercadorias baratas. Será que estamos de fato conseguindo fazer frente a tal exploração?
Muitos questionamentos nós vêm à mente, mas um parece ser crucial para entendermos nossa inserção subjetiva nesta realidade e a possível projeção de um futuro melhor – quais os ideais que nos norteiam? Em meio aos protestos podemos identificar a existência de vários, muitos deles contraditórios entre si.  Embasados em determinadas concepções algumas pessoas adquirem posturas autoritárias, pois presos a determinadas ideias de como o mundo deveria ser, não aceitam as diferenças que ele possa vir a ter. Tais posturas apresentam receitas prontas de como as pessoas deveriam ser ou agir. Muitas vezes revestidas do discurso de liberdade e democracia, celebram secretamente condutas extremistas, reacionárias.
E você neste contexto? Quais são os seus ideais? Eles te fazem “acordar” ou te mantém preso a ilusões enganadoras?
Freud (1914) entende que a projeção para o futuro se relaciona à formação dos ideais, que são construídos ao longo do desenvolvimento psíquico. Eles podem ser entendidos como formas de ilusão, pois são compostos por perspectivas criadas pela nossa imaginação. O que não significa dizer que são sempre enganosos e alienantes, já que a ilusão quando confrontada com a realidade deixa de ser enganosa e passa a possuir uma enorme capacidade criativa no campo do acontecer psíquico.
A capacidade criativa que a ilusão possui na nossa subjetividade pode ser constada no brincar da criança. Ao criar um mundo ilusório à criança torna-se ativa no mundo, seu brinquedo não é apenas um objeto material, mas algo intermediário entre seu mundo interno e a realidade. Freud (1908/1907) chega a afirmar que quando brinca toda criança se comporta como um poeta.
Tal papel da ilusão no psiquismo fica evidente naquilo que Freud (1914) denominou de narcisismo primário. Que seria uma fase do desenvolvimento afetivo em que o bebê, para dar continuidade a vida intrauterina, vive uma ilusão de autossuficiência. Ele ainda não faz a distinção entre seu eu e os seus cuidadores, assim, vive uma ilusão de onipotência na união fusional com a mãe. 

Freud (1914) aponta que a criança tem a crença de que seus pais são onipotentes. Para lidar com seu próprio desamparo (pois sozinha não consegue prover suas necessidades), a criança se identifica com essa imagem, construindo dentro de si a certeza da existência de um objeto grandioso, sem limites e sem falhas. No decorrer de nossa existência essa imagem de onipotência é projetada em figuras substitutivas dos pais todo-poderosos. Freud (1914, 1921) dá como exemplo desse processo o objeto da paixão amorosa. O apaixonado projeta, ou transfere, sobre o objeto de sua paixão, as idealizações narcísicas de sua infância, e tem a ilusão de que, nesse objeto, está o segredo de tudo que lhe falta, que ele por si só é capaz de preencher o vazio da falta – que é constituinte de nossa existência.
Não é apenas o apaixonado que quer a todo custo recuperar o paraíso perdido da sua infância. Este narcisismo infantil também se manifesta em outras formas de projeção, dentre elas destaca-se a questão dos ideais, sobretudo quando estes se tornam idealizações, em que o objeto (pessoa, instituição, concepção, bens, etc) são valorizados sobremaneira e atribuídos de intenso poder. Felizmente a realidade e suas frustrações confrontam esse poder. Sem as desilusões e eu seria para todo sempre prisioneiro. Quando as idealizações são quebradas abre-se um grande mundo simbólico de possibilidades, que impulsiona o sujeito a construir a própria história.
Com o trabalho de luto da imagem interna de um objeto onipotente e sem falhas (desidealização), torna-se possível construir ideais de outra ordem. Freud (1914) conceitua o ideal do eu (Ichideal), para se referir a instância que traz a renúncia às ambições fálicas do desejo onipotente. Por meio do ideal do eu é possível aceitar ou considerar os limites e faltas de si e do outro. Esta instância psíquica constrói ideais que servem de referência ao próprio eu e suas realizações efetivas e põe em movimento outros dispositivos (que não a idealização), dentre os quais um lugar de destaque reservado ao mecanismo de sublimação.
Os ideais como harmonia, lazer, paz e prazer são fundamentais a existência humana individual e social e não necessariamente precisam estar vinculados a projetos idealizados, não precisam estar direcionados totalmente para uma imagem futura longínqua. Eles podem se voltar ao presente, enquanto crítica às condições que nos fazem sofrer. Ao invés de determinar como nossa vida deveria ser, podemos embasados nestas ideias, manter os ouvidos abertos ao futuro, sem mapea-lo em cada centímetro. Sem buscar receitas prontas e acabadas para o futuro.
É preciso conhecer as próprias carências, conhecer os próprios desejos e suas barreiras para poder criar potencialidades de futuro.  Sem saber o que se quer como saber para onde ir? Sem conhecer os próprios erros e limites como construir um futuro melhor? Sem entender os determinantes históricos e econômicos de nossa sociedade, como exigir mudanças estruturais?
As idealizações são certezas, que fecham a realidade, onde não há outras possibilidades. De tal modo, não idealizar é um caminho de desamparo, pois nos coloca diante da incerteza do futuro. Ao contrário do que possa parecer,  aceitar o desamparo não nos deixa na passividade, mas nos liberta de falsas promessas de felicidade, perfeição e proteção plena.
Virgínia Woolf (2008) escreve que “sem dúvida, nossa vida seria muito pior sem o nosso espantoso talento para a ilusão” (188). Ela seria muito mais chata, pois a ilusão é o que dá o colorido da nossa existência, o calor de nossa vida. As paixões, as artes, todos os bens geniais construídos pela humanidade, são maneiras que criamos para continuar, tal como a criança, a brincar com seu brinquedo e através dele tentar lidar de forma (cri) ativa com o nosso mundo. Por isso as promessas idealizadas são tão sedutoras, pois a criança que existe em nós quer a todo custo desconsiderar a realidade e fazer o seu desejo triunfar sobre ela. Contudo, matar essa criança (o desejo) ou viver somente em prol dela são formas diferentes de se prender as idealizações. É preciso não estar sempre acordado, possuir as ilusões dentre do si, criar sobre a realidade, sonhar, mas sempre de olhos abertos.


*Por Samara Megume Rodrigues


Referências Bibliográficas

FREUD, S. (1908/1907). Escritores Criativos e devaneios. In:______. Obras  psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standart brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, S. (1914) À  guisa de Introdução ao Narcisismo. In:______. Obras Psicológicas de Sigmund Freud: Escritos sobre a Psicologia do Inconsciente ( L, A, Hanns, trad.). Rio de Janeiro: Imago, 2004.
FREUD, S. (1921). Psicologia de massas e análise do eu. In:_______. Psicologia de massas e análise do eu e outros textos. (P.C, de Souza, Trad.) São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
FREUD, S. (1930). O mal-estar na cultura. (R. Zwick, Trad.). Porto Alegre: L&PM, 2011.
WOOLF, V. O quarto de Jacoy. (L. Luft, trad). Osasco: Novo Século, 2008.