terça-feira, 21 de maio de 2013

NOSSAS SOLIDÕES


 Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma; és um escravo nobre, ou um servo inteligente: não és livre
Fernando Pessoa (Fragmentos de uma autobiografia, 2011, p.245).


A palavra solidão nomeia um estado que não é sentido da mesma forma por todas as pessoas. Para alguns a solidão é o decreto dos travesseiros pesados, das tristezas profundas, do vazio sem palavras. Buscam fugir dela, pois é sentida como intolerável e desesperadora.  Já para outros a solidão é um estado desejado, planejam os momentos em que enfim conseguirão ficar a só, para usufruir plenamente de pequenos prazeres como ouvir música, ler um bom livro, fruir da beleza, ter compreensões íntimas.
Freud ao longo de todo o seu desenvolvimento teórico irá afirmar a intensa dependência que um ser humano possui de outro, para sobreviver e se desenvolver. Ele formula a compreensão de que o desamparo seria uma condição fundadora do ser humano, pois só é possível se humanizar na relação com outro. Somos vulneráveis ao desejo, à vontade e ao olhar de outro. O que ocorre é que muitas vezes essa dependência se torna tão grande que anulamos nosso próprio desejo, nossas vontades e nosso olhar em prol de outras pessoas. Ficamos alienados de nós mesmos, não sabendo nomear sozinhos o que nos faz sofrer. Assim, em momentos de solidão somos tomados pela angústia, quando aquilo que está oculto em nós (que negamos em prol do outro) pode irromper (Freud, 1926/1993). 


Ficar sozinho não é fácil, pois, impõe a companhia de si mesmo. Essa angústia ou a tristeza da solidão não advém somente do estado de estar só, mas das fantasias que a povoam: das culpas, dos ressentimentos, do medo de não conseguir alcançar o ideal que impomos para nós mesmos. Nesse momento doloroso é mais fácil entregar-se a qualquer companhia, de qualquer pessoa ou grupo, em que podemos esquecer esses conflitos pela ilusão de não estarmos sozinhos - pela identificação com uma ideia ou organização que nos oferece enganosamente uma parte de seu poder, prometendo uma sensação de onipotência e completude. No entanto, os conflitos são inerentes a nossa condição humana, os medos, as frustrações, o desamparo e a solidão negados não deixam de existir.  Não importa a música alta, a bebida, a companhia que tenta nos fazer sorrir, ou o domínio do grupo ou organização do qual fazemos parte: sentimo-nos sós em meio a tanta gente.
A solidão não é algo que podemos escolher ou abandonar: somos solitários. Afinal cada um é único e não é possível dividir com outra pessoa de forma plena todas as sensações, percepções e transformações internas que sentimos. Sentimos com o nosso próprio corpo e nossa história de vida – e é através desse corpo e dessa história que percebemos e interagimos com o mundo, de forma tão singular.
O outro não sou eu: e isso às vezes é insuportável, pois significa que teremos que carregar o peso de nossa própria existência, sozinhos. Nossos limites e nossas faltas nos pertencem, são de nossa própria responsabilidade e não do outro. A densidade desse peso pode nos tornar leves, o que Kundera (1995) escreve como A insustentável leveza do ser. Desse peso podemos construir um belo jardim. Ou podemos senti-lo como um fardo, e sermos afundados para abaixo das nossas próprias raízes. 
Com base em Freud (1905/1996) podemos compreender que esse peso da solidão está relacionado às primeiras sensações do bebê, que sente a falta da pessoa amada. Sua total dependência desse objeto de amor, sua incapacidade de prover sozinho as próprias necessidades gera tensão, que posteriormente se transformará em angústia. Assim:
A angústia das crianças não é, originalmente, nada além da expressão da falta que sentem da pessoa amada; por isso elas se angustiam diante de qualquer estranho; temem a escuridão porque nesta, não vêem a pessoa amada, e se deixam acalmar quando podem segurar-lhe a mão na obscuridade (Freud, 1905/1996, p.211-212).

Freud (1905) irá afirmar que o adulto muitas vezes irá se comportar como essa criança com sua angústia, principalmente quando se sente inibido diante de suas possibilidades de satisfação no mundo externo. Dessa forma, esse adulto “começa a sentir medo tão logo fica sozinho, ou seja, sem uma pessoa de cujo amor se acredite seguro, e a querer aplacar esse medo através das medidas mais pueris” (Freud, 1905/1996, p.212)
A angústia da solidão advém da impossibilidade da criança (e adulto) de metaforizar a falta de seu objeto de amor, de buscar formas satisfatórias de saciar temporariamente essa falta. A criança se sente desamparada, ela é indefesa na ausência do outro, pois não sabe suprir as próprias necessidades. No entanto essa criança (e não mais o bebê) pode elaborar e conter essas sensações. Ela pode simbolizar a presença da pessoa amada. Freud (1920/1993) escreve um exemplo desse processo, analisando uma brincadeira de uma criança com um objeto ligado a um fim (como um carretel). A criança joga-o e em seguida o traz para perto de si. Afastando o objeto e puxando-o de volta (for-da) a criança busca controlar a ausência da mãe.
O prazer e a alegria extraídos da solidão ocorrem quando possuímos um mundo interno povoado, rico em palavras, em boas lembranças: um grande mundo simbólico que nos fortalece, por meio do qual podemos compreender a amar partes de nossa história. Assim, quando a só podemos brincar com nossas faltas, porque não estamos verdadeiramente sozinhos, mas na companhia dos afetos de muitas pessoas que passaram por nossa vida. Podemos então construir diálogos da nossa história com o mundo (por exemplo, com a literatura, a música, o cinema, etc).
Ao contrário do que se pensa, só é possível estar verdadeiramente com o outro quando se sabe estar só.  Clarice Lispector (1996) se pergunta: “amor será dar de presente um ao outro a própria solidão? Pois é a coisa mais última que se pode dar de si” (p.155). Dar a solidão é poder entregar-se integralmente. Como saber amar o outro se não se ama a própria história? Como ver e respeitar o outro em sua diferença se não se assume as próprias falhas e responsabilidades? Como é difícil assumir para o outro a dependência que temos dele, nosso enorme desamparo humano, e não o culparmos por ele.  
A solidão traz a tona o medo da separação de um objeto altamente valioso (castração). Entretanto, nossa vida é sempre separação, desde que o cordão umbilical é cortado iremos passar a vida tentando - às vezes com muitos momentos de sucesso - sermos um. Atualmente parece que é cada vez mais difícil construir essa unidade de si mesmo, porque somos inundados cotidianamente com falsas promessas de preenchimento de nossas faltas, principalmente por meio do consumo. Ser um não é muito lucrativo. Ser padrão, estar enquadrado é muito mais rentável e por isso, aceito e valorizado socialmente. As tecnologias de comunicação nos iludem com a promessa de acabar com os limites do eu e do outro. Pela internet podemos sempre estar conectados, com a ingênua ilusão de que nunca iremos ficar sós. No entanto, esses meios não nos ligam inteiramente com outras pessoas, mas sim ao vazio.
Escravos da tecnologia, dos meios de comunicação de massa, enfim, do dinheiro, não podemos aceitar nossa solidão. E assim, ficamos reféns não apenas do olhar de aceitação dos outros, mas de vontades pueris, fabricadas para descarte.
Saber estar só é o oposto da ideologia da competição e do individualismo, pois, nesses estados ocorre o esvaziamento de si, em que os sujeitos são postos em constante comparação. Nada de si mesmo é sentido como próprio e bom. Afinal, torna-se necessário se despir da própria singularidade para engolir sem questionamento os ideais culturais sobre-humanos que são impostos.
Rilke(2009), o poeta da solidão, escreve que devemos ser pacientes com as nossas tristeza, que devemos saber viver a solidão como quem espera o por do sol de cada dia, como companheira.  Reconhecer a própria finitude e o próprio desamparo é percorrer não apenas o caminho mais dolorido de si mesmo, mas o mais belo e gratificante, como nos aponta Drummond (1984):

Por muito tempo achei que ausência é falta
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
Que rio e danço e invento exclamações alegres,
Porque a ausência assimilada,
Ninguém a rouba mais de mim.



* Por Samara Megume Rodrigues 


Referências
ANDRADE, C, D. Ausência. In: Corpo. Rio de Janeiro: Record, 1984.
FREUD, S. (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas completas de Sigmund Freud. (vol. VII). Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, S. (1920). “Más allá del princípio de placer”. In: Obras Completas, (vol. XVIII). Buenos Aires: Amorrortu, 1993.
FREUD, S. (1926). “Inhibicíón, síntoma y angustia”. In: Obras completas, (vol.XX).Buenos Aires: Amorrortu, 1993.
KUNDERA, M. A insustentável leveza do ser. Rio de Janeiro: Record, 1995.
LISPECTOR, C. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.
PESSOA, F. Fragmentos de uma autobiografia. In: Livro do Desassossego – composto por Bernardo Soares ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. Lisboa: Assírio & Alvin, 2011.
RILKE, R, M. Cartas a um jovem poeta. Porto Alegre:Edição L&PM Pocket, 2009.



5 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  2. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  3. Excelente texto. Estava buscando algo que somasse ao que eu estava estudando sobre a solidão e este, se encaixou perfeitamente.

    ResponderExcluir