quinta-feira, 21 de março de 2013

PALESTRA: O Mal-Estar Amoroso na Contemporaneidade



A Roda de Psicanálise convida a todos para a palestra:




O Mal-Estar Amoroso na Contemporaneidade


com Ana Lila Lejarraga (UFRJ)

Possui graduação em Psicologia - Universidad Nacional de La Plata (1976), Especialização em Terapia de adolescentes pelo Instituto de Psiquiatria da UFRJ (1982), Mestrado em Teoria Psicanalítica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1992) , Doutorado em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1999) e Pós-doutorado em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2011). Atualmente é professora associada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Departamento de Psicologia Clínica e Divisão de Psicologia Aplicada). Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Intervenção Terapêutica e Psicanálise, atuando principalmente nos seguintes temas: Freud, Ferenczi, Winnicott, clínica psicanalítica, trauma, amor e contemporaneidade.

Data: sexta, 05 de abril de 2013.

Horário: 14:00

Local: Auditório do DACESE/ UEM - Universidade Estadual de Maringá 

Valor: R$15,00 

INSCRIÇÕES NO LOCAL 

Contato: rodadepsicanalise@gmail.com

*A imagem utilizada no cartaz é do artista Joan Miró, pintor surrealista, espanhol do século XX.
O quadro chama-se:" Baillarina II" e é de 1925.

sábado, 16 de março de 2013

Você tem medo de quê?


Têm medo do amor e não saber amar
Têm medo da sombra e medo da luz
Têm medo de pedir e medo de calar
Tenho medo de gente e de solidão
Tenho medo da vida e medo de morrer
Tenho medo de ficar e medo de escapulir
Medo de olhar no fundo
Medo de dobrar a esquina
Medo de ficar no escuro
De passar em branco, de cruzar a linha
Medo de se achar sozinho
De perder a rédea, a pose e o prumo
Medo de pedir arrego, medo de vagar sem rumo
Medo que dá medo do medo que dá

(Miedo - Lenine / Julieta Venegas)


O medo é uma das emoções mais primitivas do homem, e que nos acompanha por toda a história da humanidade, juntamente com o prazer, desprazer e a raiva. Ele é psicofísico, isto é, nos causa sensações físicas, o coração dispara, a respiração acelera, as mãos esfriam, além de alterações no estado emocional. O medo é visceral, não conseguimos controlar, apenas reagimos, fugindo ou paralisando. O medo por outro lado é também um sinal para que nos protejamos do perigo, ele salvaguarda nossa integridade física e mental.
Quando pensamos no medo, logo uma pergunta vem à cabeça: medo de quê? De fato, o medo requer um objeto, um alvo, ou seja, tem-se medo de alguma coisa, de um ser vivo e/ou de uma situação que nos ameace fisicamente ou psiquicamente. Então, somente experimentamos esta emoção a partir de uma experiência com o objeto que nos causou medo. No entanto, em muitas ocasiões sentimos um “medo” de que não temos consciência, em que não conseguimos identificar claramente o que nos faz temer. Esse “medo sem objeto” trata-se de outra emoção, a ansiedade.
Sabemos por experiência que a ansiedade é intrínseca ao medo e a psicanálise nos ensina que ela está intimamente ligada a uma expectativa por algo, a ansiedade [Angst][1] “tem qualidade de indefinição e falta de objeto” (Freud, 2006, p.160), ao contrário do medo, quando se trata da ansiedade não sabemos exatamente o que desencadeou tal emoção.
Para Freud (2006) temos dois tipos de ansiedade, a realística e a ansiedade neurótica. O autor constata que ambas tem relação com um perigo real, portanto, com o medo; contudo se diferenciam no que diz respeito ao objeto do medo. A ansiedade realística é aquela acionada por um perigo real, sabe-se do que tem medo, por exemplo, quando nos deparamos com um animal peçonhento, sabemos que corremos perigo, então, a ansiedade é acionada como um sinal, que por antecedência, no coloca em expectativa, nos preparando para uma ação de defesa, ou ataque. Enfim, proporciona uma ação protetora, ainda assim, sabemos que esta ansiedade pode provocar uma reação imprópria, como a paralisia diante do perigo eminente. Já a ansiedade neurótica é a ansiedade por um perigo desconhecido, por exemplo, numa situação de agorafobia[2], o “medo” que a pessoa sente é de que não possa sair do meio da multidão caso se sinta mal. Nesse caso o temor não é pela multidão em si, trata-se de uma antecipação do perigo, em que se sente que algo ruim possa acontecer. Assim sendo, a pessoa busca evitar o “mal-estar”. Contudo, esta expectativa faz com que a pessoa sinta diante de uma possibilidade de perigo, medo, terror, pânico, mesmo sem de fato ter ocorrido um perigo real. Fica evidente então, que a ansiedade neurótica, funciona exatamente como a ansiedade realística quando estamos diante um perigo real. O fato de o perigo ser fantasiado e não real não diminui a intensidade das emoções. Pelo contrário, muitas situações a fantasia parece gerar mais pavor e temor do que a existência de uma ameaça real.
Freud compreendeu a relação entre as duas situações de ansiedade, ao constatar que o medo de um perigo real é experimentado por nós de forma traumática. Esse medo marcará nossa memória, de forma desprazerosa, e será experimentado como desamparo, “portanto uma situação de perigo é uma situação reconhecida, lembrada e esperada de desamparo” (Freud, 2006, p.162). Assim, todo sentimento de medo está relacionado às nossas primeiras experiências ou experimentação do sentimento de desamparo, que é sentido como ansiedade.
O desamparo é a primeira sensação que sentimos na vida, o bebê é desamparado fisicamente e afetivamente, pois, não consegue viver sem a ajuda de um cuidador (pais), necessita sempre de um outro para sobreviver. O desamparo é experimentado pelo bebê de forma traumática, e, consequentemente, passivamente, quando nos vemos tomados pela ansiedade neurótica, repetimos ativamente a situação traumática, e tentamos dominar essas experiências psiquicamente. A experiência do medo da perda do nosso primeiro objeto de amor (os pais ou quem estiver cumprindo a função de cuidador), que se apresenta muito poderoso para o bebê, pois sem ele não saberia como viver, é o nosso medo primordial, primeiro, original, sob o qual repousará ligado, relacionados, associados a todos os outros “medos” realísticos ou não, ao sentimento de desamparo.
Voltamos à reflexão inicial: que medo é este, que não tem objeto, que é generalizado, paralisante? Sabemos que é algo relativo ao nosso sentimento de desamparo, medo de sentir o desamparo, é o medo de ter medo.
Estamos em uma sociedade em que o desamparo é um sentimento bastante recorrente, pois estamos sujeitados a padrões de vida, de beleza, de comportamento, no plano do ideal, ou seja, impraticáveis, muitas vezes impossíveis de serem alcançados, pois negam o que temos de mais sublime, a nossa singularidade. Cada um de nós tem sua maneira de experimentar a vida, este é o potencial criativo que é inerente a cada indivíduo. E ao buscar nos adaptar a um único padrão negamos o que nos diferencia e ao mesmo tempo o que nos torna especial. O poeta já dizia, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Quando negamos nossas dores, não nos permitindo experimentar a delícia de nossas diferenças, ficamos em uma zona de conforto, em que não arriscamos novas possibilidades, ficamos enrijecidos, engessados em um sistema de crenças que não nos permite buscar outras maneiras de obter prazer – ficamos presos no medo da mudança, medo de sermos nós mesmos.
Parece que não temos saída, não temos como evitar o medo, a ansiedade, uma vez que ela é nossa constituinte, tanto como o prazer, quanto como a dor. Negar o sofrimento, negar nossas fragilidades e limitações, em função de uma exigência da ordem do ideal, portanto, impossível, é viver no desamparo, na angústia.
Por isso é importante nos questionar do que temos medo, dar palavra a essa ansiedade, e ao mesmo tempo questionar nossas crenças, nossos ideais, e fazer a prova de realidade: é possível? Dar conta de nossas limitações, ao contrário do que se pensa, nos fortalece, diminui a ansiedade, abre novos caminhos, cria possibilidades onde até então só existia temor. 
E você, tem medo de quê?

*Por Isabelle Maurutto Schoffen


Miedo (Lenine e Julieta Venegas)




Tienen miedo del amor y no saber amar
Tienen miedo de la sombra y miedo de la luz
Tienen miedo de pedir y miedo de callar
Miedo que da miedo del miedo que da

Tienen miedo de subir y miedo de bajar
Tienen miedo de la noche y miedo del azul
Tienen miedo de escupir y miedo de aguantar
Miedo que da miedo del miedo que da

El miedo en una sombra que el temor no esquiva
El miedo as una trampa que atrapó al amor
El miedo es la palanca que apagó la vida
El miedo es una grieta que agrandó el dolor

Tenho medo de gente e de solidão
Tenho medo da vida e medo de morrer
Tenho medo de ficar e medo de escapulir
Medo que dá medo do medo que dá

Tenho medo de acender e medo de apagar
Tenho medo de esperar e medo de partir
Tenho medo de correr e medo de cair
Medo que dá medo do medo que dá

O medo é uma linha que separa o mundo
O medo é uma casa aonde ninguém vai
O medo é como um laço que se aperta em nós
O medo é uma força que não me deixa andar

Tienen miedo de reir y miedo de llorar
Tienen miedo de encontrarse y miedo de no ser
Tienen miedo de decir y miedo de escuchar
Miedo que da miedo del miedo que da

Tenho medo de parar e medo de avançar
Tenho medo de amarrar e medo de quebrar
Tenho medo de exigir e medo de deixar
Medo que dá medo do medo que dá

O medo é uma sombra que o temor não desvia
O medo é uma armadilha que pegou o amor
O medo é uma chave que apagou a vida
O medo é uma brecha que fez crescer a dor

El miedo es una raya que separa el mundo
El miedo es una casa donde nadie va
El miedo es como un lazo que se apierta en nudo
El miedo es una fuerza que me impide andar

Medo de olhar no fundo
Medo de dobrar a esquina
Medo de ficar no escuro
De passar em branco, de cruzar a linha
Medo de se achar sozinho
De perder a rédea, a pose e o prumo
Medo de pedir arrego, medo de vagar sem rumo

O medo estampado na cara ou escondido no porão
O medo circulando nas veias ou em rota de colisão
O medo é de Deus ou do demo? É ordem ou é confusão?
O medo é medonho
O medo domina
O medo é a medida da indecisão

Medo de fechar a cara, medo de encarar
Medo de calar a boca, medo de escutar
Medo de passar a perna, medo de cair
Medo de fazer de conta, medo de iludir

Medo de se arrepender
Medo de deixar por fazer
Medo de se amargurar pelo que não se fez
Medo de perder a vez
Medo de fugir da raia na hora H
Medo de morrer na praia depois de beber o mar
Medo que dá medo do medo que dá
Medo que dá medo do medo que dá




Referências
FREUD, S. Inibições, Sintomas e Ansiedade (1826). In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Comentários e notas de James Strachey; Colaboração de Anna Freud; Tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996, p. 160-163. vol. XX.
HANNS, L.A. A Teoria Pulsional na clínica de Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1999.

Músicas:
Miedo (Lenine e Julieta Venegas)
Dom de Iludir (Caetano Veloso)


[1]O termo alemão Angst tal como outros na psicanálise tem mais de uma possibilidade de tradução. Nas traduções vertidas do inglês optam pelo termo ansiedade e seu correlato angústia. Também se discute sobre a tradução de Angst por medo, dois estados emocionais claramente relacionados e também por remeter eventualmente ao pavor, como Luiz Alberto Hanns (1999, p.113). Entretanto, para este artigo escolhemos acolher a compreensão de James Strachey, que traduz Angst por ansiedade, assim diferenciando da angústia que pode implicar no sentido existencial de tristeza e amargura, e do medo [Furcht] que implica em um objeto do medo, conforme salienta Freud em diferenciar Furcht de Angst. (Freud, 2006, p.160)
[2] Medo de lugares abertos ou medo de multidão.