sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Sobre o excesso e o vazio


Em nossa necessidade de substituir cada vez mais depressa as coisas mundanas que nos rodeiam, já não podemos nos dar ao luxo de usá-las, de respeitar e preservar sua inerente durabilidade; temos que consumir, devorar, por assim dizer, nossas casas, nossos móveis, nossos carros, como se estas fossem as “boas coisas” da natureza que se deteriorariam se não fossem logo trazidas para o ciclo infindável do mutabilismo do homem com a natureza (ARENDT, 1981, p 138).

A palavra consumir surge do latim consumere, que significa usar, comer, estragar; fazer desaparecer pelo uso ou gasto; corroer, apagar; dissipar. Possuindo o sentido oposto ao de produzir. (CUNHA, 2007). Ou seja, um objeto consumido é algo que desaparece sem deixar nada a quem o utilizou.
Tempos difíceis esses, em que as relações necessariamente se tornaram de consumo e não de apropriação. Um tempo de descartabilidade, em que existe uma abundância de modelos, um cardápio variado de coisas, um excesso produzido. O mais moderno e atual já é o ultrapassado e velho de amanhã. Nada permanece, nem mesmo nossas relações, nossas amizades, paixões e amores.
Nos tornamos consumidores, mas principalmente, somos consumidos! Investimos toda nossa energia em ser corretos, perfeitos cidadãos civilizados e belos. Toda essa energia nos é consumida (a força de trabalho, a energia física, mental, afetiva), mas quase nada é devolvido. Insatisfeitos somos jogados em um ciclo, em que podemos novamente gozar com o que a sociedade mais nos oferece: o incessante desejo de ter aquilo que não possuímos, o que não somos. 
E o que nos resta? Decepção,  frustração, ansiedade? E o vazio.

Vazio Agudo 
   Vazio Agudo
Ando meio
Cheio
De tudo.

            (Leminski)

          *  Samara Megume Rodrigues

Referências:

ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense,1981.
CUNHA, A, G. Dicionário etimológico da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007.

0 comentários:

Postar um comentário