quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

RESTOS DO CARNAVAL: UM POUCO DE MÁSCARAS E CINZAS


O carnaval não é uma festa nova, ele já está presente nas origens gregas de nossa civilização ocidental. Era uma festa profana de culto a fertilidade, comemorada com sexo e vinho, um culto ao deus Dionísio. Moderna é a forma como foi apropriado e transformado na cultura. Nova é a forma como os conglomerados de comunicação se debruçam sobre essa festa. Como eles, muitas outras empresas lucram com a alegria fabricada, a felicidade, às vezes vazia de quem se compraz em se sentir inserido na festa da democracia do espetáculo.
Já há alguns anos o governo distribui gratuitamente e de forma massiva milhares de camisinhas para os foliões. Também gastam milhões em propaganda com o intuito ensinar as pessoas a não dirigirem embriagadas e fazerem suas necessidades fisiológicas em local apropriado. O que pode demonstrar que essa festa está mais para os instintos animais do que para a cultura propriamente dita.
Sexo, suor, nudez, vaidade e fantasias. Há uns anos atrás o ritmo que embalada o carnaval eram as marchinhas e o samba, com letras de duplo sentido, com ironias, insinuações. Hoje tudo é escancarado, o ritmo é o da mistura. Pagode, funk, sertanejo, samba, eletrobrega, a micareta, tudo misturado, tudo muito alto. O intenso barulho externo parece evidenciar a mudez interna. O que grita mais alto é o corpo. Na festa da carne tudo é físico, visual, exagerado, autoglorificador, afinal, no carnaval “pode tudo”
O crítico literário Mikhail Bakhtin (1996) empreendeu um belíssimo estudo sobre a cultura cômico-popular. O autor analisa como foi construída a percepção carnavalesca, ou carnavalização da cultura. Essa percepção tem origem no romantismo, em sua filiação com o realismo grotesco, em que ocorre uma subversão dos valores, uma crítica em ato a algumas normas e leis que regem a tradição, principalmente às hierarquias da vida social e as fronteiras que delimitam o humano do animalesco.
No carnaval a ordem é negar o pai e sua lei que é obedecida o ano todo, com tanto pesar. E se é em nome dessas leis que nos tornamos civilizados, podemos agora celebrar nossa parte animal. (Nada mais irônico do que o Papa Bento XVI renunciar a paternidade da Igreja católica em pleno carnaval, mas isso é outro assunto...)
No dia-dia abrimos mão de muitos desejos e vontades, reprimimos partes importantes de nós mesmos para poder sobreviver na “selva de pedra”. Se aguentarmos calados a rotina do trabalho e das violências sociais, obedecendo a grande lei da competição - em que a vida é transformada numa corrida rumo ao nada - podemos agora transgredir.  Jogar essas imposições para o alto e enfim, realizar vontades e desejos. Mas essa realização não pode ser feita sozinha, pois um único sujeito levaria a intensa culpa e responsabilização. Então, o carnaval pode ser  oferecido como um espaço coletivo para a vazão de nossa revolta contra a vida civilizada que levamos.
Minuciosamente fabricado, ele não aparece como um espetáculo lucrativo para muitas empresas, mas como que surgindo espontaneamente de nossos corações. O carnaval é pra todos! Podemos nos entregar ao coletivo e nele “sermos o que quisermos”, nos divertir e nos libertar. O que ocorre, entretanto, é que essa liberdade além de vil é falsa, pois a forma de divertimento é predeterminada. Captados pelas frustrações e angústias cotidianas não percebemos que mais uma vez estamos reprimindo a nossa individualidade, realizando vontades que não sabemos se são realmente nossas.
Então, entregues ao coletivo “todos somos um”. Somos levados pela batida dos corpos, pela embriaguês do momento. Ao contrário do que possa parecer esse movimento de massa pode expressar um intenso individualismo. Pois o coletivo representa, na fantasia de quem está inserido uma imagem potencializada de si mesmo, o “ideal” que a pessoa gostaria de ser. Assim é possível negar as diferenças individuais: as individualidades (lembrando que individualidade e individualismo são conceito bem diferentes), negar a existência de expectativas e anseios diferentes.  - Freud (1921) analisa esse fenômeno minuciosamente, em seu trabalho “Psicologia de massas e análise do eu”.  
Vale tudo, menos ser verdadeiro, ser um “eu mesmo”, vale vestir a máscara e se comportar com um outro, que nunca se foi realmente.
O rosto expressa toda a singularidade. Nele estão as marcas de nossos sentimentos e angústias. Estão as marcas da história de cada um (a história singular). Daí a necessidade de encobri-lo com diversas máscaras. Atualmente as agências de comunicação, a serviço de empresas diversas, oferecem uma ampla variedade para se encaixarem nos rostos infelizes de muitos cidadãos.As máscaras que usamos necessariamente não são as carnavalescas. Elas podem ser materiais, brilhos, maquiagens, carros, bens, tecnologias, bem como frases feitas, sintomas, comportamentos e atitudes.
A máscara é a criação de um personagem (como as personas do teatro). Criamos máscaras simbólicas para encobrir o medo de sermos rejeitados por aquilo que somos. Encobrimos nosso desamparo humano. Elas são usadas como ferramenta de adaptação, um recurso de defesa psíquica. O que ocorre é que podemos nos apegar demasiadamente aos papéis que exercemos, esquecendo de que nós é quem somos os autores da história, de nossa vida pessoal, de nossas escolhas. Fernando Pessoa(1999), em um trecho de seu poema Tabacaria, descreve  belamente o processo de criarmos máscaras como ideais de nós mesmos, diz assim:



Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.                             


A máscara pregada à cara só pode ser retirada por uma outra pessoa. Rubem Alves escreveu certa vez que ela só desprega da nossa pele quanto tocada pelo amor. Assim sabe-se que está amando, quando, diante da pessoa amada, a máscara cai e voltamos a ser crianças. Por isso o tamanho medo amar e de se entregar em uma relação amorosa,  de se livrar das máscaras,  pois ela nós faz criança novamente, enuncia nosso desamparo infantil e a intensa necessidade de ser reconhecido, protegido e acolhido pelo ser amado. Como escreveu Freud (1930, p.74), “jamais estamos tão desprotegidos contra o sofrimento do que quando amamos, jamais nos tornamos tão desamparadamente infelizes quando perdemos o objeto de amor”
Não é a toa que toda a onipotência, a sensação de não depender de nada, nem de ninguém, a frieza efusiva da festa do carnaval acaba justamente na quarta-feira de cinzas, em que os restos de quem nunca fomos podem ser jogados ao vento. Podemos novamente renascer para aguentar calados os sofrimentos do dia-dia, pois os poucos dias de festa fez parecer que tudo valeu a pena. As serpentinas já foram gastas, a roupa será lavada e quem sabe outras máscaras nos serão oferecidas para o dia-dia, mais sóbrias, talvez mais obedientes.  


* Samara Megume Rodrigues

Referências
Bakhtin, M. (1996). A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo-Brasília: Edunb/Hucitec.
Freud, S. (2011). Psicologia de massas e análise do eu. In S. Freud. Psicologia de massas e análise do eu e outros textos. (P.C, de Souza, Trad.) São Paulo: Companhia das Letras, p.13-133. (Texto original publicado em 1921)
Freud, S. (2011). O mal-estar na cultura. (R. Zwick, Trad.). Porto Alegre: L&PM. (Texto original publicado em 1930).
Pessoa, F. (1999). Poemas de Álvaro de Campos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Sobre o excesso e o vazio


Em nossa necessidade de substituir cada vez mais depressa as coisas mundanas que nos rodeiam, já não podemos nos dar ao luxo de usá-las, de respeitar e preservar sua inerente durabilidade; temos que consumir, devorar, por assim dizer, nossas casas, nossos móveis, nossos carros, como se estas fossem as “boas coisas” da natureza que se deteriorariam se não fossem logo trazidas para o ciclo infindável do mutabilismo do homem com a natureza (ARENDT, 1981, p 138).

A palavra consumir surge do latim consumere, que significa usar, comer, estragar; fazer desaparecer pelo uso ou gasto; corroer, apagar; dissipar. Possuindo o sentido oposto ao de produzir. (CUNHA, 2007). Ou seja, um objeto consumido é algo que desaparece sem deixar nada a quem o utilizou.
Tempos difíceis esses, em que as relações necessariamente se tornaram de consumo e não de apropriação. Um tempo de descartabilidade, em que existe uma abundância de modelos, um cardápio variado de coisas, um excesso produzido. O mais moderno e atual já é o ultrapassado e velho de amanhã. Nada permanece, nem mesmo nossas relações, nossas amizades, paixões e amores.
Nos tornamos consumidores, mas principalmente, somos consumidos! Investimos toda nossa energia em ser corretos, perfeitos cidadãos civilizados e belos. Toda essa energia nos é consumida (a força de trabalho, a energia física, mental, afetiva), mas quase nada é devolvido. Insatisfeitos somos jogados em um ciclo, em que podemos novamente gozar com o que a sociedade mais nos oferece: o incessante desejo de ter aquilo que não possuímos, o que não somos. 
E o que nos resta? Decepção,  frustração, ansiedade? E o vazio.

Vazio Agudo 
   Vazio Agudo
Ando meio
Cheio
De tudo.

            (Leminski)

          *  Samara Megume Rodrigues

Referências:

ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense,1981.
CUNHA, A, G. Dicionário etimológico da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007.