quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

POR QUE A PSICANÁLISE?



Mais de 100 anos se passaram desde a invenção da psicanálise. Por isso alguns questionariam: será que ela responde, ou melhor, ela dá sentido, aos problemas que vivemos nos dias de hoje? As atuais explicações biológicas, essencialmente cerebrais sobre as dores e sofrimentos psíquicos trazem modernas soluções químicas de fácil acesso nas farmácias que prometem alivio imediato da dor.
Soma-se a esse fato outro fenômeno comum, que não ocorre somente com a psicanálise, mas com grande parte de teorias complexas: a banalização, que reduziu (e reduz) a psicanálise a uma espécie de religião secularizada que possui resposta para tudo (Freud explica); numa proposta ética pouco exigente (libertação sexual); e numa ingênua promessa de felicidade (uma vida sem culpa).
Ora atacada, ora banalizada a psicanálise perdeu espaço para as soluções enlatadas, para teorias que prometem a cura do sofrimento de forma rápida e eficaz, para a utilização massiva de substâncias químicas, entre elas, os fármacos. Como bem apontado por Roudinesco (2000) longe de contestar a utilidade dessas substâncias químicas e desprezar o conforto que elas trazem, é certo que elas não podem curar o homem de seus sofrimentos psíquicos. Felizmente, nenhuma ciência pode por fim às paixões, a loucura, a impossibilidade de estar sempre feliz, e ao amor! Nenhum avanço tecnológico ou farmacológico poderá contornar os conflitos imanentes à condição humana, como a sexualidade, a agressividade, a morte, o convívio em sociedade, o desamparo.
A psicanálise revelou que o sofrimento psíquico deve ser tratado a partir de suas causas mais profundas, sobretudo as inconscientes, e por isso não podemos nos conformar com uma ação paliativa que reduz a subjetividade ao funcionamento cerebral, na química dos neurotransmissores, ou seja, ao nível farmacológico que cala o sintoma. Não se trata de invalidar a farmacologia que tem ajudado e muito na qualidade de vida de sujeitos em sofrimento, mas é preciso contextualizar o uso abusivo que se faz de antidepressivos, antipsicóticos e ansiolíticos.
Essa tendência à medicalização pode indicar uma busca para abafar a angústia e calar os fenômenos sociais. Por exemplo: em uma sala de aula é difícil não encontrar crianças que fazem uso da, já tão conhecida, ritalina. Essa prática medicamentosa comum e corriqueira substituiu a reflexão sobre o sofrimento da criança e calou alguns questionamentos importantes, como o porquê da criança não se adequar à sala de aula ou, o que não está soando bem entre ela e o ambiente escolar que ela freqüenta. Não se examina mais qual é esse ambiente.
Sabemos que a farmacoterapia mesmo embasada em matriz material (cerebral), possui seus entraves, como qualquer outra droga. Seus efeitos terapêuticos correspondem a uma parcela da população e não funcionam para todos os tipos de pacientes, mesmo aqueles que possuem o mesmo diagnóstico. É ilusão acreditar que é possível isolar uma idéia patogênica, como se isola um vírus, e desta forma combatê-lo. Para a psicanálise o sintoma é uma forma de estar no mundo de existir e deve ser compreendido.
O uso abusivo de substâncias químicas, a busca por soluções e terapias que tragam alívio imediato, o intenso consumismo, são atitudes e fenômenos atuais, produtos de uma sociedade do excesso, em que ocorre uma intensa veiculação de informações, objetos, tecnologias e imagens que se apresentam como necessidades, como substitutos do nosso desejo.  Todos esses meios contém a mensagem de que é possível abolir qualquer falta ou vazio, qualquer insatisfação. Em tal sociedade não se é permitido sentir pequenas dores ou prazeres. Tudo deve ser intenso, intensificado pelo consumo das mercadorias, sejam elas químicas ou não.
Instalou-se um generalizado entusiasmo esfuziante, e quem não se enquadra nele não está apto a exercer a sua cidadania do espetáculo, não é digno de aplausos e olhares. Nesse mundo, não há tempo para sofrer ou para se angustiar (afinal, tempo é dinheiro!). Não é mais possível falar sobre o próprio sentir, para além da exibição padronizada e pré-determinada das redes-sociais. Por que optar por um tratamento prolongado e profundo quanto podemos comprar a “solução” em apenas algumas sessões, ou ainda, adquirir pílulas mágicas, criando “paraísos artificiais”, por meio do “envenenamento de nosso espírito” - como bem escreveu Baudelaire (2005).
O que a psicanálise se propõe é ouvir e dar nome a “coisa” que está adormecida, esquecida, ao que é inconciliável ambivalente na nossa alma, a ouvir as deformações de nossa alma, porque nelas subjaz nossa história, que muitas vezes não é glamorosa como desejamos, a contragosto nossa história é dolorosa, vergonhosa e até mesmo traumática. No entanto, é nela que permanecem os traços das nossas escolhas, dos nossos desejos, dos nossos limites, enfim, dos traços que nos compõem e nos tornam únicos.  A psicanálise se propõe entrar nas profundezas do ser, apoiado em uma escuta direcionada por um método e técnicas precisas que proporcionam um ambiente seguro e de amparo.
A proposta da psicanálise, portanto, incomoda e atrai críticas principalmente oriundas da psiquiatria e das psicologias com base somente no comportamento e na consciência ao, justamente, não pactuar com a superficialidade que estes dados apontam e o imediatismo que perpassam a vida cotidiana atual. Assim, podemos concluir que as características da cultura e sociedade contemporâneas, não invalidam a Psicanálise enquanto teoria e método clinico eficaz, mas sim a faz perturbadora. O aspecto crítico da psicanálise funciona como uma espécie de proteção ou precaução contra a cegueira e alienação que a qual estamos submetidos e que, na verdade, nos faz sofrer ainda mais. A psicanálise nos convoca a voltar nosso olhar para o absurdo (o obscuro, o contraditório) que nos constitui e, na medida possível para cada um de nós, ajuda a nos reconciliar com ele, com nós mesmos. 

*Isabelle Maurutto Schoffen 
*Samara Megume Rodrigues
*Thais Becker de Campos

Referências
Roudinesco, E.  Por que a psicanálise? Tradução de Vera Ribeiro, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.
Baudelaire, C. Paraísos Artificiais. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005. 

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