terça-feira, 19 de novembro de 2013

Eros e Tânatos: nossas porções de vida e morte

Por Samara Megume Rodrigues*

Amor e ódio, sexualidade e agressividade, vida e morte, são forças que habitam o ser humano e estão presentes no cotidiano, tanto nos conflitos mais banais quanto nos mais mórbidos ou sublimes da humanidade. Tais pares de opostos estão misturados, amalgamados em tudo que o ser humano faz, pensa e sente. Por exemplo, onde há amor deve haver ódio, toda sexualidade necessita de um grau de agressividade, em proporções variadas. Essas polaridades são os cernes dos conflitos psíquicos. Em psicanálise, elas podem ser nomeadas pelos conceitos de pulsão de vida (Eros) e pulsão de morte (Tânatos).
A mitologia apresenta uma bela metáfora para compreendermos a amálgama entre as pulsões. No mito grego, Eros (cupido na mitogia romana) é o deus do amor e Tânatos, deus da morte. Eros, o mais belo dos deuses, possui arco e flecha com os quais costuma enlaçar de amor homens, mulheres e deuses. Segundo consta na mitologia, certo dia Eros adormeceu numa caverna, embriagado por Hipno (deus do sono, irmão de Tânatos). Ao sonhar e relaxar suas flechas se espalharam pela caverna, misturando-se às flechas da morte. Ao acordar, Eros sabia quantas flechas possuía. Recolheu-as, e sem querer levou algumas que pertenciam a Tânatos. (Esopo, Grécia Antiga in Meltzer, 1984). Sendo assim, Eros passou a portar flechas de amor e morte (Tanatos).
Na psicanálise o conceito de pulsão não é nada simples, visto que é uma abstração teórica necessária, que busca romper com a dicotomia mente e corpo. A pulsão seria um conceito limítrofe entre o somático e o psíquico. Algo que impele o organismo a agir em determinada direção. Diferentemente do instinto animal, a pulsão possui uma plasticidade em relação ao seu objeto. Além de um objeto (Objekt), a pulsão se caracterizaria por possui uma pressão (Drang),  uma meta (Ziel) e uma fonte (Quelle) (Freud, 1915), sendo uma representação psíquica complexa. Posteriormente Freud (1920) irá ampliar tal compreensão, passando a definir a pulsão como algo anterior a representação psíquica das estimulações somáticas, que visa o rebaixamento completo das tensões e por isso, algo que conduziria o organismo ao estado anterior à vida, ao inorgânico.
Ao longo de sua obra Freud constrói dois dualismos pulsionais. O primeiro, introduzido e desenvolvido a partir de 1910, refere-se aos pares: pulsões do eu (autoconservação, que tem a fome e a sede como protótipos) e as pulsões sexuais (não apenas as de meta sexual, mas as inibidas, derivadas e sublimadas).  Esse primeiro dualismo foi resumido por Freud (1920, 1930) pela fórmula Eros e Ananke(necessidade). O amor e a fome seriam o motor da existência humana e da humanidade.
A partir de 1920 Freud constrói um novo dualismo pulsional. As pulsões do eu (autoconservação) e sexuais passam a integrar o mesmo grupo pulsional, sendo representadas por Eros – a Pulsão de vida. Eros teria a função de amalgamar partículas fragmentadas da substância viva e criar unidades cada vez mais complexas, buscando preservar o organismo vivo e a espécie.
Fundamentado em estudos da biologia Freud (1920) constrói a hipótese da pulsão de morte (Todestrieb), que teria como representante o sadismo. Ela anuncia a tendência fundamental de todo ser vivo de retornar ao estado inorgânico, a busca pela   redução completa das tensões. Segundo Freud (1920) o “objetivo da vida é a morte, e remontando ao passado: o inanimado já existia antes do vivo” (p.161). Voltada para o interior à pulsão de morte se expressa na autodestruição, e para o exterior se manifesta como pulsão de destruição.
Freud (1923) escreve que cada grupo de pulsões corresponderia a um processo fisiológico específico. A pulsão de vida teria processos de construção e a pulsão de morte, de demolição, sendo que em toda matéria viva esses dois processos estariam atuantes. Em outras palavras, a pulsão de vida teria um funcionamento conjuntivo, agregando as substâncias vivas e criando unidades cada vez maiores, ela seria ligação. Já a pulsão de morte teria um funcionamento disjuntivo, desfazendo o que foi construído, desligando. (Freud, 1925). Nesse sentido, Garcia-Roza (1995) irá afirmar que tal dualismo não se refere à natureza da pulsão, mas a um dualismo de modos de pulsão: “se a pulsão se faz presente no aparato anímico promovendo uniões, conjunções, ela é tida como de “vida”; se ela se presentifica no aparato anímico disjuntivamente, “fazendo furo”, então é tida como de morte” (Garcia-Roza,1995, p.162).
Eros promove a ligação entre o sujeito com os elementos necessários a sua preservação. Também liga esse sujeito a suas vivências. Ligação entre seu passado e seu  futuro.  Ele possibilita a criação de sentidos. Cria, enfim, os laços entre os sujeitos e desses com o mundo. No entanto, a pulsão de vida não atua de forma isolada. Por isso a existência no ser humano de uma ambivalência em tudo que ele pensa, faz e sente. Amalgamada a Eros a pulsão de morte age de forma silenciosa. É o que Freud (1930) define como o mal-estar intrínseco a cultura: a destrutividade do ser humano, voltada para si mesmo ou para os outros -  esse algo que existe e que foge a norma e a criação de sentidos.  Como escreve Dostoiévski(1971), tememos o fato de que secretamente sabemos da existência de um demônio oculto, que habita todo homem. 
A vida é o conflito, se mostra, faz barulho. Já a morte é taciturna, quase invisível. Quando Freud (1920) constrói a hipótese da pulsão de morte ele amplia conceito de pulsão, que passa a ser compreendido como um impulso inerente à vida, algo anterior à sexualidade, anterior a representação psíquica, algo que não é visível, nem dizível.
A pulsão de morte está para além do princípio do prazer, além do aparelho psíquico e só se mostra quando amalgada a pulsão de vida. Tânatos entendido como pulsão de destruição é pura dispersão, potência dispersa. Por isso Freud (1920) irá afirmar que ela é uma pulsão por excelência. A pulsão de vida seria algo já capturado pelo psíquico, cujo objetivo também seria conduzir o organismo a morte, mas a própria morte – preservando a vida para que ela morra ao seu próprio modo. (Freud, 1920)
Trabalhando para Eros, a pulsão de morte pode ser intensamente criativa. Como escreve Garcia-Roza (1995) a partir do desarranjo causado pela pulsão de morte é que se pode ir em busca do diferente, do novo. A nossa agressividade pode e deve ser utilizada em prol da vida. Nossos desligamentos podem nos fazer crescer. É preciso que conheçamos esse “demônio oculto” e que o coloquemos para trabalhar a nosso favor.
As definições do conceito de pulsão e das teorias pulsionais que apresentei estão muito longe de fazerem juz à complexidade do conceito e suas implicações. O próprio Freud (1920) escreve que ainda há muito a que se descobrir sobre as vicissitudes do que está para além do princípio do prazer. Mas é sempre preciso colocar um ponto final, cessar algumas ligações, pois os desligamentos são importantes e necessários. Eles dão espaço a novas formações.... Talvez seja por isso que Rubem Alves (1990) escreveu certa vez que o ser humano possui um ar de despedida em tudo que faz. Como ele escreve, “as pequenas despedidas apenas acordam em nós a consciência de que a vida é uma despedida”. Saber da nossa finitude, bem como da finitude de todas as coisas nos enlaça aquilo que realmente interessa. Flechas de Tânatos e flechas de Eros nos atravessam a todo instante e como também escreve Rubem Alves (1990), ter consciência desses instantes nos possibilita fruir “da beleza única do momento que nunca mais será...” (p.11). 



*Samara Megume Rodrigues 
Samara é psicóloga clínica, mestranda em Psicologia pela Universidade Estadual de Maringá. Colaboradora e idealizadora da Roda de Psicanálise

Referências Bibliográficas

  Alves, R. Tempus Fugit. São Paulo: Paulus,  1990.
  Dostoievski, F. Os Irmãos Karamázov. Rio de Janeiro: Abril Cultural, 1971. 
  Esopo, Grécia Antiga. In: Kovács, M, J. Morte e desenvolvimento humano. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1992.
  Freud, S. (1910). A concepção psicanalítica da perturbação psicogênica da visão.Edição Standart das Obras Completas.  Rio de Janeiro: Imago, 1996.
  Freud, S. (1915). Pulsões e destinos da pulsão. In. Escritos sobre psicologia do inconsciente: obras psicológicas de Sigmund Freud, vol.I. Luiz Alberto Hanns, trás. Rio de Janeiro: Imago, 2004.
  Freud, S. (1920). Além do princípio de prazer. In: Escritos sobre Psicologia do Inconsciente, vol.II. (Luiz Alberto Hanns, trad). Rio de Janeiro: Imago, 2006.
  Freud, S. (1923) O Eu e o Id. In: Escritos sobre Psicologia do Inconsciente, vol.III. (Luiz Alberto Hanns, trad). Rio de Janeiro: Imago, 2007.
  Freud, S.(1925). A Negativa. In: Escritos sobre Psicologia do Inconsciente, vol.III. (Luiz Alberto Hanns, trad). Rio de Janeiro: Imago, 2007.
  Freud, S.(1930) O Mal estar na Cultura. (Renato Zwick, trad). Porto Alegre: L&PM, 2011.
  Garcia-Roza. Artigos de metapsicologia, 1914-1917: narcisismo, pulsão, recalque, inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar, 1995.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

CRISE DA PSICANÁLISE?



Desde suas origens a psicanálise sofre ataques, seja pela descoberta de seu objeto, o inconsciente, pelo método de investigação, seja pelo campo de pesquisa e atuação, a clínica. Enfim, mais de 100 anos se passaram desde a invenção da psicanálise e ainda há grandes embates teóricos a respeito de suas origens epistemológicas na tentativa de colocar em cheque seu estatuto científico e consequentemente sua validação enquanto procedimento terapêutico. Tal como em seus primórdios os ataques não advinham apenas de seus opositores e adversários, os maiores ataques vieram de dentro da psicanálise.
Ana Maria Rudge (2006) em seu texto, As teorias do sujeito contemporâneo e os destinos da psicanálise, argumenta sobre a necessidade entre os psicanalistas de situar sua ciência em nosso tempo histórico com o objetivo de aplacar as críticas que são cada vez mais ferrenhas. Em ataque ao olhar psicanalítico à singularidade há a acusação de ignorar as dimensões históricas e políticas do sujeito contemporâneo.
Rudge (2006) considera legítimos os esforços dos psicanalistas em buscar compreender a realidade cultural, contudo, considera “saídas um tanto apressadas e simplistas que evitam a via mais árdua da construção de teoria” (p.12) que chegam a ter efeito oposto à revitalização do campo psicanalítico e acabam se aliando ao ataque à psicanálise, considerado pela autora, uma “identificação com o agressor”. Como exemplo, Rudge (2006) destaca as hipóteses de Charles Melman em O homem sem gravidade, considerando essa publicação um paradigma justificado pela repercussão entre os psicanalistas brasileiros e franceses. A ideia de Melman (2008) é a de que precisamos de uma “nova versão psicanalítica do sujeito contemporâneo”, e que uma “nova economia psíquica” estaria organizando o psiquismo, isto é, a economia psíquica passada, pautada na psicanálise clássica de Freud, organizada pela repressão, estaria superada, dando lugar à exibição do gozo. Por estes e outros ataques é que se anuncia uma “crise” da Psicanálise.
Entendemos que “crise” não seria o termo mais assertivo, uma vez que remete a um momento crítico e decisivo. A história do movimento psicanalítico nos revela que os ataques sofridos pela psicanálise atualmente são de natureza semelhante aos presentes em seu surgimento - e que a acompanham desde então. À vista disso, pensamos com Freud (1925/2006) e compreendemos este momento como típico, um movimento de resistência, próprio da psicanálise, uma vez que remonta a sua a própria história.
Freud em As resistências à Psicanálise (1925/2006) evidencia que as críticas a sua ciência não ficaram no plano intelectual das discussões epistemológicas, elas foram além, e vieram carregadas de exaltação dos humores e conclui que as explosões de indignação e escárnio sugerem outras resistências. As resistências são atribuídas ao fator sexual da teoria psicanalítica, ou melhor, a força da sexualidade, de Eros, tanto na vida individual normal e patológica, como no âmbito das realizações culturais de mais alto valor para a sociedade. A principal crítica no plano individual foi a respeito dos sintomas das neuroses constituírem formas substitutivas de satisfação sexual, revelando o caráter patogênico que os padrões sociais excessivamente rígidos podem infligir ao indivíduo; a psicanálise foi acusada de pansexualismo e assim, uma ameaça a sociedade por incentivar a promiscuidade. No plano social/cultural foi acusada de ferir, degradar os mais elevados valores culturais ao sustentar que a arte, a religião, e a ordem social, são também originadas de uma contribuição da sexualidade desviada de seu objeto imediato.
Enfim, desde sua origem as resistências mais fortes à psicanálise surgiram de fontes emocionais, de “algo” que a psicanálise anuncia e denuncia, e do qual não queremos saber.  Partimos dos argumentos do próprio Freud e levantamos a hipótese de que ainda resistimos à descoberta psicanalítica da teoria dos instintos/pulsão, ainda resistimos à sexualidade infantil, resistimos ao caráter primordialmente sexual na origem de nossa mente. Resistência marcada seja pelo escárnio dos adversários da psicanálise, ou pela racionalização conceitual demasiada, muitas vezes dos próprios psicanalistas ou estudiosos da psicanálise, que transformam a força indomável das pulsões em abstrações e intelectualismo, como observou Freud.
Freud (1925/2006) admite, com pesar, que os psicanalistas não fogem a resistência que a psicanálise desperta. Entendemos também que da mesma maneira que se reivindica uma “psicanálise contemporânea”, uma psicanálise diferente da do pai, existe a dificuldade de renunciar o prestígio e proteção que a psicanálise representa e assumir-se e arriscar-se por conta própria. E assim, tal como o filho deseja, se desagrilhoar do pai, tido como conservador.
Sabe-se da importância que o tempo histórico e a cultura têm para o pensamento psicanalítico, enfim, “que o social é constitutivo da subjetividade humana”. (Honda, 2009, p.97). Não podemos deixar de evidenciar, entretanto, que a postura dos psicanalistas “resistentes à psicanálise” possam estar motivadas também pela ideologia da pós-modernidade, em que se rechaça com veemência as metanarrativas, as teorias explicativas e organizadoras, os clássicos, enfim, em linguagem psicanalítica, aos impulsos ambivalentes direcionado ao pai.
A análise de Freud a respeito das resistências à psicanálise nos leva a refletir sobre esta possível “crise da psicanálise”, e lança luz ao momento social e cultural que estamos vivenciando atualmente. Mesmo com o desenvolvimento tecnológico e científico acumulados, ainda os impulsos implacáveis e ambivalentes que habitam o humano não deixaram de impor sua força e com a mesma intensidade que nos atingiu nos primórdios da civilização.
Talvez a resistência à psicanálise não dure para sempre como Freud pensou, entretanto, sabemos que esta ciência ainda fere o narcisismo humano, ainda fere nosso desejo de onipotência, de completude.  Sabemos também que ela continua a denunciar e criticar o funcionamento da sociedade, pois, o mal-estar se instala em qualquer tempo, em qualquer cultura. Entendemos que por mais que mudanças sociais, econômicas, culturais tenham ocorrido neste intervalo de tempo, a civilização ainda se sustenta na repressão dos nossos instintos.

Por Isabelle Maurutto Schoffen
Isabelle é psicóloga clínica, mestranda em Psicologia pela Universidade Estadual de Maringá, colaboradora e idealizadora da Roda de Psicanálise: teoria, clínica e cultura.

Obra divulgada: "Divã"
*não foi possível encontrar o nome do artista.

Referências

Freud, S. (2006). As resistências à Psicanálise. In Edição standard das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomão, trad., Vol. 19, pp. 235-248). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1925) 

Honda, H. (2009). Subjetividade e Metapsicologia: a constituição conceitual da realidade psíquica. In: A. E. Tomanik, A. M. P. Caniato, & M. G. D. Facci (Orgs.) A Constituição do Sujeito e Historicidade. (pp, 63-104). Capinas: Alínea.

Melman, C. (2008). O homem sem gravidade – gozar a qualquer preço. (Sandra Regina Felgueiras, trad.). Rio de Janeiro: Companhia de Freud.

Rudge, A. M. (2006). As teorias do sujeito contemporâneo e o destino da psicanálise. In Ana Maria Rudge (org). Traumas. (pp. 11-21), São Paulo: Escuta.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Um pouco de ilusão: sobre ideais e idealizações.

Por muitos anos vários intelectuais acreditavam que vivíamos em uma época de morte das utopias, em que parecia não ser possível visualizar uma mudança social e cultural de nossa época. No entanto desde 2008 e mais massivamente em 2011 estamos acompanhamos o desenrolar de uma onda de protestos pelo mundo. A intensa eclosão simultânea e contagiosa de protestos que, apesar de pautarem-se em questões regionais, expressam uma indignação social. Ditaduras foram derrubadas na Tunísia, no Egito, na Líbia, no Iêmem. Na Europa ocorreram ocupações e greves na Espanha, Portugal, Grécia, Londres, Chile, em Wall Street, nos EUA, Rússia, e as atuais manifestações no Brasil. Ao ponto de muitos chegarem a afirmar que enfim “o povo acordou”. Mas acordou de que? Das ilusões que nos mantinham presos as opressões? Quais ilusões? Quais opressões?
Como analisado por Freud (1930) uma cota de mal-estar social é intrínseca a civilização, visto que para viver em sociedade abrimos mão da realização de muitos desejos. Abrimos mão de parte de nossa sexualidade e agressividade em troca do que a civilização tem para nos oferecer: segurança, cultura, a transmissão dos bens socialmente construídos pelas gerações anteriores a nossa. O preço parece justo? Deveria ser, mas muitas vezes parece muito caro, já que investimos tanta energia no trabalho, no convívio social, que a dívida da sociedade perante esse investimento fica muito alta.
 Encontramos-nos dentro de um sistema que, via de regra, expropria, rouba nossas forças de trabalho, nossa energia criativa, transformando as relações humanas em meras mercadorias baratas. Será que estamos de fato conseguindo fazer frente a tal exploração?
Muitos questionamentos nós vêm à mente, mas um parece ser crucial para entendermos nossa inserção subjetiva nesta realidade e a possível projeção de um futuro melhor – quais os ideais que nos norteiam? Em meio aos protestos podemos identificar a existência de vários, muitos deles contraditórios entre si.  Embasados em determinadas concepções algumas pessoas adquirem posturas autoritárias, pois presos a determinadas ideias de como o mundo deveria ser, não aceitam as diferenças que ele possa vir a ter. Tais posturas apresentam receitas prontas de como as pessoas deveriam ser ou agir. Muitas vezes revestidas do discurso de liberdade e democracia, celebram secretamente condutas extremistas, reacionárias.
E você neste contexto? Quais são os seus ideais? Eles te fazem “acordar” ou te mantém preso a ilusões enganadoras?
Freud (1914) entende que a projeção para o futuro se relaciona à formação dos ideais, que são construídos ao longo do desenvolvimento psíquico. Eles podem ser entendidos como formas de ilusão, pois são compostos por perspectivas criadas pela nossa imaginação. O que não significa dizer que são sempre enganosos e alienantes, já que a ilusão quando confrontada com a realidade deixa de ser enganosa e passa a possuir uma enorme capacidade criativa no campo do acontecer psíquico.
A capacidade criativa que a ilusão possui na nossa subjetividade pode ser constada no brincar da criança. Ao criar um mundo ilusório à criança torna-se ativa no mundo, seu brinquedo não é apenas um objeto material, mas algo intermediário entre seu mundo interno e a realidade. Freud (1908/1907) chega a afirmar que quando brinca toda criança se comporta como um poeta.
Tal papel da ilusão no psiquismo fica evidente naquilo que Freud (1914) denominou de narcisismo primário. Que seria uma fase do desenvolvimento afetivo em que o bebê, para dar continuidade a vida intrauterina, vive uma ilusão de autossuficiência. Ele ainda não faz a distinção entre seu eu e os seus cuidadores, assim, vive uma ilusão de onipotência na união fusional com a mãe. 

Freud (1914) aponta que a criança tem a crença de que seus pais são onipotentes. Para lidar com seu próprio desamparo (pois sozinha não consegue prover suas necessidades), a criança se identifica com essa imagem, construindo dentro de si a certeza da existência de um objeto grandioso, sem limites e sem falhas. No decorrer de nossa existência essa imagem de onipotência é projetada em figuras substitutivas dos pais todo-poderosos. Freud (1914, 1921) dá como exemplo desse processo o objeto da paixão amorosa. O apaixonado projeta, ou transfere, sobre o objeto de sua paixão, as idealizações narcísicas de sua infância, e tem a ilusão de que, nesse objeto, está o segredo de tudo que lhe falta, que ele por si só é capaz de preencher o vazio da falta – que é constituinte de nossa existência.
Não é apenas o apaixonado que quer a todo custo recuperar o paraíso perdido da sua infância. Este narcisismo infantil também se manifesta em outras formas de projeção, dentre elas destaca-se a questão dos ideais, sobretudo quando estes se tornam idealizações, em que o objeto (pessoa, instituição, concepção, bens, etc) são valorizados sobremaneira e atribuídos de intenso poder. Felizmente a realidade e suas frustrações confrontam esse poder. Sem as desilusões e eu seria para todo sempre prisioneiro. Quando as idealizações são quebradas abre-se um grande mundo simbólico de possibilidades, que impulsiona o sujeito a construir a própria história.
Com o trabalho de luto da imagem interna de um objeto onipotente e sem falhas (desidealização), torna-se possível construir ideais de outra ordem. Freud (1914) conceitua o ideal do eu (Ichideal), para se referir a instância que traz a renúncia às ambições fálicas do desejo onipotente. Por meio do ideal do eu é possível aceitar ou considerar os limites e faltas de si e do outro. Esta instância psíquica constrói ideais que servem de referência ao próprio eu e suas realizações efetivas e põe em movimento outros dispositivos (que não a idealização), dentre os quais um lugar de destaque reservado ao mecanismo de sublimação.
Os ideais como harmonia, lazer, paz e prazer são fundamentais a existência humana individual e social e não necessariamente precisam estar vinculados a projetos idealizados, não precisam estar direcionados totalmente para uma imagem futura longínqua. Eles podem se voltar ao presente, enquanto crítica às condições que nos fazem sofrer. Ao invés de determinar como nossa vida deveria ser, podemos embasados nestas ideias, manter os ouvidos abertos ao futuro, sem mapea-lo em cada centímetro. Sem buscar receitas prontas e acabadas para o futuro.
É preciso conhecer as próprias carências, conhecer os próprios desejos e suas barreiras para poder criar potencialidades de futuro.  Sem saber o que se quer como saber para onde ir? Sem conhecer os próprios erros e limites como construir um futuro melhor? Sem entender os determinantes históricos e econômicos de nossa sociedade, como exigir mudanças estruturais?
As idealizações são certezas, que fecham a realidade, onde não há outras possibilidades. De tal modo, não idealizar é um caminho de desamparo, pois nos coloca diante da incerteza do futuro. Ao contrário do que possa parecer,  aceitar o desamparo não nos deixa na passividade, mas nos liberta de falsas promessas de felicidade, perfeição e proteção plena.
Virgínia Woolf (2008) escreve que “sem dúvida, nossa vida seria muito pior sem o nosso espantoso talento para a ilusão” (188). Ela seria muito mais chata, pois a ilusão é o que dá o colorido da nossa existência, o calor de nossa vida. As paixões, as artes, todos os bens geniais construídos pela humanidade, são maneiras que criamos para continuar, tal como a criança, a brincar com seu brinquedo e através dele tentar lidar de forma (cri) ativa com o nosso mundo. Por isso as promessas idealizadas são tão sedutoras, pois a criança que existe em nós quer a todo custo desconsiderar a realidade e fazer o seu desejo triunfar sobre ela. Contudo, matar essa criança (o desejo) ou viver somente em prol dela são formas diferentes de se prender as idealizações. É preciso não estar sempre acordado, possuir as ilusões dentre do si, criar sobre a realidade, sonhar, mas sempre de olhos abertos.


*Por Samara Megume Rodrigues


Referências Bibliográficas

FREUD, S. (1908/1907). Escritores Criativos e devaneios. In:______. Obras  psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standart brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, S. (1914) À  guisa de Introdução ao Narcisismo. In:______. Obras Psicológicas de Sigmund Freud: Escritos sobre a Psicologia do Inconsciente ( L, A, Hanns, trad.). Rio de Janeiro: Imago, 2004.
FREUD, S. (1921). Psicologia de massas e análise do eu. In:_______. Psicologia de massas e análise do eu e outros textos. (P.C, de Souza, Trad.) São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
FREUD, S. (1930). O mal-estar na cultura. (R. Zwick, Trad.). Porto Alegre: L&PM, 2011.
WOOLF, V. O quarto de Jacoy. (L. Luft, trad). Osasco: Novo Século, 2008.


terça-feira, 21 de maio de 2013

NOSSAS SOLIDÕES


 Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma; és um escravo nobre, ou um servo inteligente: não és livre
Fernando Pessoa (Fragmentos de uma autobiografia, 2011, p.245).


A palavra solidão nomeia um estado que não é sentido da mesma forma por todas as pessoas. Para alguns a solidão é o decreto dos travesseiros pesados, das tristezas profundas, do vazio sem palavras. Buscam fugir dela, pois é sentida como intolerável e desesperadora.  Já para outros a solidão é um estado desejado, planejam os momentos em que enfim conseguirão ficar a só, para usufruir plenamente de pequenos prazeres como ouvir música, ler um bom livro, fruir da beleza, ter compreensões íntimas.
Freud ao longo de todo o seu desenvolvimento teórico irá afirmar a intensa dependência que um ser humano possui de outro, para sobreviver e se desenvolver. Ele formula a compreensão de que o desamparo seria uma condição fundadora do ser humano, pois só é possível se humanizar na relação com outro. Somos vulneráveis ao desejo, à vontade e ao olhar de outro. O que ocorre é que muitas vezes essa dependência se torna tão grande que anulamos nosso próprio desejo, nossas vontades e nosso olhar em prol de outras pessoas. Ficamos alienados de nós mesmos, não sabendo nomear sozinhos o que nos faz sofrer. Assim, em momentos de solidão somos tomados pela angústia, quando aquilo que está oculto em nós (que negamos em prol do outro) pode irromper (Freud, 1926/1993). 


Ficar sozinho não é fácil, pois, impõe a companhia de si mesmo. Essa angústia ou a tristeza da solidão não advém somente do estado de estar só, mas das fantasias que a povoam: das culpas, dos ressentimentos, do medo de não conseguir alcançar o ideal que impomos para nós mesmos. Nesse momento doloroso é mais fácil entregar-se a qualquer companhia, de qualquer pessoa ou grupo, em que podemos esquecer esses conflitos pela ilusão de não estarmos sozinhos - pela identificação com uma ideia ou organização que nos oferece enganosamente uma parte de seu poder, prometendo uma sensação de onipotência e completude. No entanto, os conflitos são inerentes a nossa condição humana, os medos, as frustrações, o desamparo e a solidão negados não deixam de existir.  Não importa a música alta, a bebida, a companhia que tenta nos fazer sorrir, ou o domínio do grupo ou organização do qual fazemos parte: sentimo-nos sós em meio a tanta gente.
A solidão não é algo que podemos escolher ou abandonar: somos solitários. Afinal cada um é único e não é possível dividir com outra pessoa de forma plena todas as sensações, percepções e transformações internas que sentimos. Sentimos com o nosso próprio corpo e nossa história de vida – e é através desse corpo e dessa história que percebemos e interagimos com o mundo, de forma tão singular.
O outro não sou eu: e isso às vezes é insuportável, pois significa que teremos que carregar o peso de nossa própria existência, sozinhos. Nossos limites e nossas faltas nos pertencem, são de nossa própria responsabilidade e não do outro. A densidade desse peso pode nos tornar leves, o que Kundera (1995) escreve como A insustentável leveza do ser. Desse peso podemos construir um belo jardim. Ou podemos senti-lo como um fardo, e sermos afundados para abaixo das nossas próprias raízes. 
Com base em Freud (1905/1996) podemos compreender que esse peso da solidão está relacionado às primeiras sensações do bebê, que sente a falta da pessoa amada. Sua total dependência desse objeto de amor, sua incapacidade de prover sozinho as próprias necessidades gera tensão, que posteriormente se transformará em angústia. Assim:
A angústia das crianças não é, originalmente, nada além da expressão da falta que sentem da pessoa amada; por isso elas se angustiam diante de qualquer estranho; temem a escuridão porque nesta, não vêem a pessoa amada, e se deixam acalmar quando podem segurar-lhe a mão na obscuridade (Freud, 1905/1996, p.211-212).

Freud (1905) irá afirmar que o adulto muitas vezes irá se comportar como essa criança com sua angústia, principalmente quando se sente inibido diante de suas possibilidades de satisfação no mundo externo. Dessa forma, esse adulto “começa a sentir medo tão logo fica sozinho, ou seja, sem uma pessoa de cujo amor se acredite seguro, e a querer aplacar esse medo através das medidas mais pueris” (Freud, 1905/1996, p.212)
A angústia da solidão advém da impossibilidade da criança (e adulto) de metaforizar a falta de seu objeto de amor, de buscar formas satisfatórias de saciar temporariamente essa falta. A criança se sente desamparada, ela é indefesa na ausência do outro, pois não sabe suprir as próprias necessidades. No entanto essa criança (e não mais o bebê) pode elaborar e conter essas sensações. Ela pode simbolizar a presença da pessoa amada. Freud (1920/1993) escreve um exemplo desse processo, analisando uma brincadeira de uma criança com um objeto ligado a um fim (como um carretel). A criança joga-o e em seguida o traz para perto de si. Afastando o objeto e puxando-o de volta (for-da) a criança busca controlar a ausência da mãe.
O prazer e a alegria extraídos da solidão ocorrem quando possuímos um mundo interno povoado, rico em palavras, em boas lembranças: um grande mundo simbólico que nos fortalece, por meio do qual podemos compreender a amar partes de nossa história. Assim, quando a só podemos brincar com nossas faltas, porque não estamos verdadeiramente sozinhos, mas na companhia dos afetos de muitas pessoas que passaram por nossa vida. Podemos então construir diálogos da nossa história com o mundo (por exemplo, com a literatura, a música, o cinema, etc).
Ao contrário do que se pensa, só é possível estar verdadeiramente com o outro quando se sabe estar só.  Clarice Lispector (1996) se pergunta: “amor será dar de presente um ao outro a própria solidão? Pois é a coisa mais última que se pode dar de si” (p.155). Dar a solidão é poder entregar-se integralmente. Como saber amar o outro se não se ama a própria história? Como ver e respeitar o outro em sua diferença se não se assume as próprias falhas e responsabilidades? Como é difícil assumir para o outro a dependência que temos dele, nosso enorme desamparo humano, e não o culparmos por ele.  
A solidão traz a tona o medo da separação de um objeto altamente valioso (castração). Entretanto, nossa vida é sempre separação, desde que o cordão umbilical é cortado iremos passar a vida tentando - às vezes com muitos momentos de sucesso - sermos um. Atualmente parece que é cada vez mais difícil construir essa unidade de si mesmo, porque somos inundados cotidianamente com falsas promessas de preenchimento de nossas faltas, principalmente por meio do consumo. Ser um não é muito lucrativo. Ser padrão, estar enquadrado é muito mais rentável e por isso, aceito e valorizado socialmente. As tecnologias de comunicação nos iludem com a promessa de acabar com os limites do eu e do outro. Pela internet podemos sempre estar conectados, com a ingênua ilusão de que nunca iremos ficar sós. No entanto, esses meios não nos ligam inteiramente com outras pessoas, mas sim ao vazio.
Escravos da tecnologia, dos meios de comunicação de massa, enfim, do dinheiro, não podemos aceitar nossa solidão. E assim, ficamos reféns não apenas do olhar de aceitação dos outros, mas de vontades pueris, fabricadas para descarte.
Saber estar só é o oposto da ideologia da competição e do individualismo, pois, nesses estados ocorre o esvaziamento de si, em que os sujeitos são postos em constante comparação. Nada de si mesmo é sentido como próprio e bom. Afinal, torna-se necessário se despir da própria singularidade para engolir sem questionamento os ideais culturais sobre-humanos que são impostos.
Rilke(2009), o poeta da solidão, escreve que devemos ser pacientes com as nossas tristeza, que devemos saber viver a solidão como quem espera o por do sol de cada dia, como companheira.  Reconhecer a própria finitude e o próprio desamparo é percorrer não apenas o caminho mais dolorido de si mesmo, mas o mais belo e gratificante, como nos aponta Drummond (1984):

Por muito tempo achei que ausência é falta
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
Que rio e danço e invento exclamações alegres,
Porque a ausência assimilada,
Ninguém a rouba mais de mim.



* Por Samara Megume Rodrigues 


Referências
ANDRADE, C, D. Ausência. In: Corpo. Rio de Janeiro: Record, 1984.
FREUD, S. (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas completas de Sigmund Freud. (vol. VII). Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, S. (1920). “Más allá del princípio de placer”. In: Obras Completas, (vol. XVIII). Buenos Aires: Amorrortu, 1993.
FREUD, S. (1926). “Inhibicíón, síntoma y angustia”. In: Obras completas, (vol.XX).Buenos Aires: Amorrortu, 1993.
KUNDERA, M. A insustentável leveza do ser. Rio de Janeiro: Record, 1995.
LISPECTOR, C. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.
PESSOA, F. Fragmentos de uma autobiografia. In: Livro do Desassossego – composto por Bernardo Soares ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. Lisboa: Assírio & Alvin, 2011.
RILKE, R, M. Cartas a um jovem poeta. Porto Alegre:Edição L&PM Pocket, 2009.



segunda-feira, 6 de maio de 2013

Entrevista com Freud em 1938

Hoje comemoramos o aniversário do fundador da Psicanálise, Sigmund Freud (06/05/1856), que completaria 157 anos.

Em homagem publicamos uma entrevista concedida por ele ao jornalista George Syvester Viereck

A presente entrevista foi concedida a BBC e realizada nos jardins de sua casa em Londres. Na ocasião Freud lutava contra um câncer na boca e já havia passado por inúmeras cirurgias e procedimentos cirúrgicos. Sua doença já havia progredido bastante, o que tornou a pronunciação de seu discurso difícil e dolorosaMesmo diante de tamanha adversidade ele demostrou uma intensa força de vida e amor pelo conhecimento! Verbalizando verdades que nos tocam a alma e nos fazem refletir. Boa leitura! 



Entrevista original: "Glimpses of the Great", G.S.Viereck, NY, London, Berlim.

- Setenta anos ensinaram-me a aceitar a vida com serena humildade.
Quem fala é o professor Sigmund Freud, o grande explorador da alma. O cenário da nossa conversa foi uma casa de verão no Semmering, uma montanha nos Alpes austríacos.
Eu tinha visto o pai da psicanálise pela última vez em sua casa modesta na capital Austríaca. Os poucos anos entre minha última visita e a atual multiplicaram as rugas na sua fronte. Intensificaram a sua palidez de sábio. Sua face estava tensa, como se sentisse dor. Sua mente estava alerta, seu espírito, firme, sua cortesia, impecável como sempre, mas um ligeiro impedimento da fala me assustou.
Parece que um tumor maligno no maxilar superior necessitou ser operado. Desde então Freud usa uma prótese, para ele causa de constante irritação.
- Detesto o meu maxilar mecânico, porque a luta com o aparelho me consome tanta energia preciosa. Mas prefiro um maxilar mecânico a maxilar nenhum. Ainda prefiro a existência à extinção. Talvez os deuses sejam gentis conosco, tornando a vida mais desagradável à medida que envelhecemos. Por fim, a morte nos parece menos intolerável do que o fardo que carregamos.
Freud se recusa a admitir que o destino lhe reserva algo especial.
Porque - disse calmamente - deveria eu esperar um tratamento especial? A velhice, com suas agruras, chega para todos. Atinge uma pessoa aqui, outra ali. Seus golpes sempre alcançam um ponto vital. A vitória final pertence ao Verme Conquistador.
"Out - out are the ligths - out all!
And over each quivering form
The curtain, a funeral pall
Comes down, with the rush of a storm
And the angels, all palid and wan,
Uprising, unveiling, affirm
That the play is the tragedy "Man",
And its hero the Conqueror Worm."
("Apagam-se, apagam-se as luzes - todas!/ E sobre cada forma trêmula/ Cai a cortina, um pano mortuário/ Com um ímpeto de tempestade/ E os anjos, pálidos e lânguidos,/ Erguendo-se, desvelando-se, afirmam/ Que a peça é a tragédia "Homem"/ E o seu herói, o Verme Conquistador.").
"Eu não me rebelo contra a ordem universal. Afinal, vivi mais de setenta anos. Tive o bastante para comer. Apreciei muitas coisas - a companhia de minha mulher, meus filhos, o pôr-do-sol. Observei as plantas crescerem na primavera. De vez em quando tive uma mão amiga para apertar. Vez ou outra encontrei um ser humano que quase me compreendeu. Que mais posso querer?"
- O senhor teve a fama - disse eu. - Sua obra influi na literatura de cada país. O homem olha a vida e a si mesmo com outros olhos, por causa do senhor. E recentemente, no seu septuagésimo aniversário, o mundo se uniu para homenagea-lo - com exceção da sua própria universidade!
- Se a Universidade de Viena me demonstrasse reconhecimento, eu ficaria embaraçado. Não há razão porque deveriam aceita a mim e a minha obra porque tenho setenta anos. Eu não atribuo importância insensata aos decimais. A fama chega apenas quando morremos e, francamente, o que vem depois não me interessa. Não aspiro à glória póstuma. Minha modéstia não é virtude.
- Não significa nada o fato de que o seu nome vai viver?
- Absolutamente nada, mesmo que ele viva, o que não é certo. Estou bem mais preocupado com o destino de meus filhos. Espero que a vida deles não venha a ser difícil. Não posso ajudá-los muito. A guerra praticamente liquidou com minhas posses, o que havia poupado durante a vida. Mas posso me dar por satisfeito. O trabalho é minha fortuna.
Estávamos subindo e descendo uma pequena trilha no jardim da casa. Freud acariciou ternamente um arbusto que floria.
- Estou muito mais interessado neste botão do que no que possa acontecer depois de morto.
- Então o senhor é, afinal de contas, um profundo pessimista?
- Não, não sou. Não permito que nenhuma reflexão filosófica estrague a minha fruição das coisas simples da vida.
- O senhor acredita na persistência da personalidade após a morte, de alguma forma que seja?
- Não penso nisso. Tudo que vive perece. Porque deveria o homem constituir uma exceção?
- Gostaria de retornar em alguma forma, de ser resgatado do pó? O senhor não tem, em outras palavras, desejo de imortalidade?
- Sinceramente, não. Se reconhecemos os motivos egoístas por trás de toda conduta humana, não temos o mínimo desejo de voltar. A vida, movendo-se num círculo, seria ainda a mesma. Além disso, mesmo se o eterno retorno das coisas, para usar a expressão de Nietzsche, nos dotasse novamente do nosso invólucro carnal, para que serviria isso, sem memória? Não haveria elo entre passado e futuro. Pelo que me toca, estou perfeitamente satisfeito em saber que o eterno aborrecimento de viver finalmente passará. Nossa vida é necessariamente uma série de compromissos, uma luta interminável entre o ego e seu ambiente. O desejo de prolongar a vida excessivamente me parece absurdo.
- O senhor desaprova as tentativas de seu colega Steinach, de prolongar o ciclo da existência humana?
- Steinach não tenta prolongar a vida. Ele apenas combate a velhice. Recorrendo ao reservatório de energia em nosso próprio corpo, ele ajuda os tecidos a resistir à doença. A operação de Steinach detém acidentes biológicos molestos, como o câncer em estágios iniciais. Torna a vida mais viável: não a torna mais digna de ser vivida. Não há motivo para desejar viver mais longamente. Mas há todo motivo para desejar viver o menor desgosto possível. Eu sou razoavelmente feliz, porque sou grato pela ausência de dor e pelos pequenos prazeres da vida, pelos meus filhos e por minhas flores.
- Bernard Shaw sustenta que vivemos muito pouco - disse eu. - Ele acha que o homem pode prolongar a vida, se assim desejar, levando sua vontade a atuar sobre as forças da evolução. Ele crê que a humanidade pode reaver a longevidade dos patriarcas.
- É possível, respondeu Freud, que a morte em si não seja uma necessidade biológica. Talvez morramos porque desejamos morrer. Assim como amor e ódio por alguém habitam nosso peito ao mesmo tempo, assim também toda vida conjuga o desejo de manter-se e um anseio pela própria destruição. Do mesmo modo como um pequeno elástico esticado tende a assumir a forma original, assim também toda matéria viva, consciente ou inconscientemente, busca readquirir a completa e absoluta inércia da existência inorgânica. O impulso de vida e o impulso de morte (life-wish and death-wish) habitam lado a lado dentro de nós.
- A morte é a companheira do amor - prosseguiu Freud - Juntos eles regem o mundo. Isso é o que diz meu livro Além do Princípio do Prazer. No começo a psicanálise supôs que o amor tinha toda a importância. Agora sabemos que a Morte é igualmente importante.
"Biologicamente , todo ser vivo, não importa quão intensamente a vida queime dentro dele, anseia pelo Nirvana, pela cessação da "febre chamada viver", anseia pelo seio de Abraão. O desejo pode ser encoberto por digressões. Não obstante, o objetivo derradeiro da vida é a sua própria extinção."
- Isso - exclamei - é a filosofia da autodestruição . Ela justifica o auto-extermínio. Levaria logicamente ao suicídio universal imaginado por Eduard von Hattmann.
- A humanidade não escolhe o suicídio, porque a lei do seu ser desaprova a via direta para o seu fim. A vida tem que completar o seu ciclo de existência. Em todo ser normal, o impulso de vida é forte o bastante para contrabalançar o impulso da morte, embora no final esta resulte mais forte. Podemos entreter a fantasia de que a Morte nos vem por nossa própria vontade. Seria possível que pudéssemos vencer a Morte, não fosse por aliado dentro de nós.
"Neste sentido" , acrescentou Freud com um sorriso, "pode ser justificado dizer que toda morte é suicídio disfarçado".
Estava ficando frio no jardim. Prosseguimos a conversa no gabinete.
Vi uma pilha de manuscritos sobre a mesa, com a caligrafia clara de Freud.
- Em que o senhor está trabalhando ?
- Estou escrevendo uma defesa da análise leiga, da psicanálise praticada por leigos. Os doutores querem tornar a análise ilegal para os não - médicos. A História, essa velha plagiadora, repete-se após cada descoberta. Os doutores combatem cada nova verdade no começo; depois procuram monopolizá-la.
- O senhor teve apoio dos leigos ?
- Alguns dos meus melhores discípulos são leigos.
- O senhor está praticando muito a psicanálise?
- Certamente. Nesse momento estou trabalhando num caso muito difícil, tentando desatar os conflitos psíquicos de um interessante novo paciente. Minha filha também é psicanalista, como você vê ...
Nesse ponto apareceu Miss Anna Freud acompanhada por seu paciente, um garoto de onze anos, de feições inconfundivelmente anglo-saxãs.
- O senhor já analisou a si mesmo?
- Certamente . O psicanalista deve constantemente analisar a si mesmo. Analisando a nós mesmos, ficamos mais capacitados a analisar os outros. O psicanalista é como o bode expiatório dos hebreus. Os outros descarregam seus pecados sobre ele. Ele deve praticar sua arte à perfeição, para desvencilhar-se do fardo jogado sobre ele.
- Minha impressão - observei - é de que a psicanálise desperta em todos os que a praticam o espírito da caridade cristã. Nada existe na vida humana que a psicanálise não possa nos fazer compreender. "Tout comprendre, c’ est tout pardonner" .
- Pelo contrário! - esbravejou Freud, suas feições assumindo a severidade de um profeta hebreu. - Tudo compreender não é tudo perdoar. A psicanálise nos ensina não apenas o que podemos suportar, mas também o que devemos evitar. Ela nos diz o que deve ser eliminado. A tolerância para com o mal não é de maneira alguma um colorário do conhecimento.
Compreendi subitamente porque Freud entrara em litígio com os seguidores que o haviam abandonado; ele não perdoa as dissenssões do caminho reto da ortodoxia psicanalítica. Seu senso do que é direito é herança de seus ancestrais. Uma herança de que ele se orgulha como se orgulha de sua raça.
- Minha língua - ele explicou - é o alemão. Minha cultura, minhas realizações são alemãs. Eu me considerava intelectualmente alemão, até que notei o crescimento do preconceito anti-semita na Alemanha e na Áustria alemã. Desde então prefiro denominar - me judeu.
Fiquei algo desapontado com essa observação. Parecia - me que o espírito de Freud deveria habitar as alturas, além de qualquer preconceito de raça, que deveria ser imune a qualquer rancor pessoal. No entanto, precisamente a sua indignação, a sua honesta ira, tornavam no mais atraente como ser humano. Aquiles seria intolerável, não fosse por seu calcanhar !
- Fico contente, Herr Professor, de que também o senhor tenha seus complexos, de que também o senhor demonstre que é um mortal.
- Nossos complexos - replicou Freud - são a fonte de nossa franqueza; mas com freqüência são também a fonte de nossa força.
- Imagino - observei - quais seriam os seus complexos !
- Uma análise séria - respondeu Freud - dura ao menos um ano. Pode durar mesmo dois ou três anos. Você está dedicando muitos anos de sua vida à "caça aos leões ". Você procura sempre as pessoas de destaque para sua geração : Roosevelt, o Kaiser, Hindenburg, Briand, Foch, Joffe, Gerg Brandes, Gerhart Hauptmann e George Bernard Shaw ...
- É parte do meu trabalho.
- Mas é também sua preferência. O grande homem é um símbolo. A sua busca é a busca de seu coração. Você está procurando o grande homem para tomar o lugar de seu pai. É parte de seu "complexo do pai".
Neguei veementemente a afirmação de Freud. No entanto, refletindo sobre isso, parece - me que pode haver uma verdade, ainda não suspeita por mim, em sua sugestão casual. Pode ser a mesma atração que me levou a ele.
- Gostaria - observei após um momento - de poder ficar aqui o bastante para vislumbrar meu coração através dos seus olhos. Talvez, como a Medusa, eu morresse de pavor ao ver minha própria imagem ! Entretanto, receio ser muito informado sobre a psicanálise. Eu freqüentemente anteciparia, ou tentaria antecipar, suas intenções.
- A inteligência, num paciente - replicou Freud - não é um empecilho. Pelo contrário, às vezes facilita o trabalho.
Nesse ponto, o mestre da psicanálise diverge de muitos dos seus seguidores, que não gostam de excessiva segurança no paciente sob seu escrutínio.
- Às vezes imagino - questionei - se não seríamos mais felizes caso soubéssemos menos dos processos que dão forma a nossos pensamentos e emoções. A psicanálise rouba à vida seu último encanto, ao relacionar cada sentimento ao seu grupo original de complexos. Não nos tornamos mais alegres descobrindo que nós todos abrigamos em nossos corações o selvagem, o criminoso e o animal.
- Que objeção pode haver contra os animais ? - replicou Freud. - Eu prefiro a companhia dos animais à companhia humana.
- Porquê ?
- Porque são tão mais simples! Não sofrem de uma personalidade dividida, da desintegração do ego, que resulta da tentativa do homem de adaptar-se a padrões de civilização demasiado elevados para o seu mecanismo intelectual e psíquico. O selvagem, como o animal, é cruel, mas não tem a maldade do homem civilizado. A maldade é a vingança do homem contra a sociedade, pelas restrições que ela impõe. As mais desagradáveis características do homem são geradas por esse ajustamento precário a uma civilização complicada. É o resultado do conflito entre nossos instintos e nossa cultura. Muito mais agradáveis são as emoções simples e diretas de um cão, ao balançar a cauda, ou ao latir expressando seu desprazer. As emoções do cão - acrescentou Freud pensativamente - lembram-nos os heróis antigos como Aquiles e Heitor.
- Meu cachorro - disse eu - é um doberman pinscher chamado Ajax.
Freud sorriu.
- Fico contente de que não possa ler. Ele certamente seria um membro menos querido da casa, se pudesse latir sua opinião sobre os traumas psíquicos e complexos de Édipo!
- Mesmo o senhor, professor, acha a existência complexa demais. No entanto parece - me que o senhor é em parte responsável pelas complexidades da civilização moderna. Antes que o senhor inventasse a psicanálise, não sabíamos que nossa personalidade é dominada por uma hoste beligerante de complexos muito questionáveis. A psicanálise fez da vida um quebra - cabeças complicado.
- De maneira alguma - respondeu Freud. - A psicanálise torna a vida mais simples. Adquirimos uma nova síntese depois da análise. A psicanálise reordena um emaranhado de impulsos dispersos, procura enrolá-los em torno do seu carretel. Ou, modificando a metáfora, ela fornece o fio que conduz a pessoa para fora do labirinto do seu inconsciente.
- Ao menos na superfície, porém, a vida humana nunca foi mais complexa. E a cada dia alguma nova idéia proposta pelo senhor ou por seus discípulos torna o problema da conduta humana mais intrigante e mais contraditório.
- A psicanálise, pelo menos, jamais fecha a porta a uma nova verdade.
- Alguns dos seus discípulos, mais ortodoxos do que o senhor, apegam - se a cada pronunciamento que sai da sua boca.
- A vida muda. A psicanálise também muda - observou Freud. - Estamos apenas no começo de uma nova ciência.
- A estrutura científica que o senhor ergueu me parece ser muito elaborada. Seus fundamentos, a teoria do "deslocamento", da "sexualidade infantil", do "simbolismo dos sonhos" etc. . , parecem permanentes.
- Eu repito, porém, que nós estamos apenas no início. Sou apenas um iniciador. Consegui desencavar monumentos soterrados nos substratos da mente. Mas ali onde eu descobri alguns templos, outros poderão descobrir continentes.
- O senhor ainda coloca ênfase sobretudo no sexo ?
- Respondo com as palavras do seu próprio poeta, Walt Whitman : "Mas tudo faltaria, se faltasse o sexo" ("Yet all were lacring, if Sex were lacring" ). Entretanto, já lhe expliquei que agora coloco ênfase quase igual naquilo que está "além" do prazer, a morte, a negação da vida. Esse desejo explica por que alguns homens amam a dor, como um passo para o aniquilamento ! Explica por que todos buscam o descanso, por que os poetas agradecem a
"Whatever gods there be,
That no life lives forever
That no life lives forever
And even the weariest river
Winds somewhere safe to sea".
("Quaisquer deuses que existam / Que vida nenhuma viva para sempre / Que os mortos jamais se levantem / E também o rio mais cansado / Deságüe tranqüilo no mar".)
- Shaw, como o senhor, não deseja viver para sempre - comentei -, mas, ao contrario do senhor, ele considera o sexo desinteressante.
- Shaw - respondeu Freud sorrindo - não compreende o sexo. Ele não tem a mais remota concepção do amor. Não há um verdadeiro caso amoroso em qualquer de suas peças. Ele ridiculariza o amor de Júlio césar, talvez a maior paixão da história. Deliberadamente, talvez maliciosamente, ele despe Cleópatra de toda a grandeza, reduzindo - a uma insignificante garota. A razão para a estranha atitude de Shaw diante do amor, para sua negação do móvel de todas as coisas humanas, que tira de suas peças o apelo universal, apesar do seu enorme alcance intelectual, é inerente à sua psicologia. Em um de seus prefácios, ele mesmo enfatiza o traço ascético do seu temperamento. Eu posso Ter errado em muitas coisas, mas estou certo de que não errei ao enfatizar a importância do instinto sexual. Por ser tão forte, ele se choca sempre com as convenções e salvaguardas da civilização. A humanidade, em uma espécie de autodefesa, procura negar sua importância. Se você arranhar um russo, diz o provérbio, aparece o tártaro sob a pele . Analise qualquer emoção humana, não importa quão distante esteja da esfera da sexualidade, e você certamente encontrará esse impulso primordial, ao qual a própria vida deve a perpetuação.
- O senhor sem dúvida foi bem sucedido em transmitir esse ponto de vista aos escritores modernos. A psicanálise deu novas intensidades à literatura.
- Também recebeu muito da literatura e da filosofia. Nietzsche foi um dos primeiros psicanalista. É surpreendente até que ponto sua intuição prenuncia as nossa descobertas. Ninguém se apercebeu mais profundamente dos motivos duais da conduta humana e da insistência do princípio do prazer em predominar indefinidamente. O seu Zaratustra diz :
"A dor
Grita : vai !
Mas o prazer quer eternidade
Pura, profunda eternidade".
A psicanálise pode ser menos amplamente discutida na Áustria e na Alemanha que nos Estados Unidos, a sua influência na literatura é intensa, porém, Thomas Mann e Hugo von Hofmannsthal muito devem a nós. Schnitzler percorre uma via que é, em larga medida, paralela ao meu próprio desenvolvimento. Ele expressa poeticamente o que eu tento comunicar cientificamente. Mas o Dr. Schnitzler não é apenas um poeta, é também um cientista.
O senhor - repliquei - não é apenas um cientista, mas também um poeta. A literatura americana - continuei - está impregnada da psicanálise. Rupertt Harvey O Higgins e outros fazem - se de seus intérpretes. É quase impossível abrir um novo romance sem encontrar referência à psicanálise. Entre os dramaturgos, Eugene O "Neill e Sydney Howard têm profunda dívida para com o senhor .The Silver cord, por exemplo, é simplesmente uma dramatização do complexo de Édipo.
- Eu sei - replicou Freud - e aprecio o cumprimento que há nessa constatação. Mas tenho receio da minha popularidade nos Estados Unidos. O interesse americano pela psicanálise não se aprofunda. A popularização leva à aceitação superficial sem estudo sério. As pessoas apenas repetem as frases que aprendem no teatro ou na imprensa. Pensam compreender algo da psicanálise, tal como ocorre nos centros Europeus. A América foi o primeiro país a reconhecer-me oficialmente. A Clark University concedeu-me um diploma honorário quando eu era ignorado na Europa. Entretanto, a América fez poucas contribuições originais à psicanálise. Os americanos são divulgadores inteligentes, raramente são pensadores criativos. Os médicos, nos Estados Unidos, e ocasionalmente também na Europa,, procuram monopolizar para si a psicanálise. Mas seria um perigo para a psicanálise deixá-la exclusivamente nas mão de um médico. Pois uma formação estritamente médica é com freqüência um empecilho para o psicanalista. É sempre um empecilho, quando certas concepções científicas ficam arraigadas no cérebro do estudioso.

Freud tem que dizer a verdade a qualquer preço! Ele não pode obrigar a si mesmo a agradar a América, onde está a maioria dos seus admiradores.
Apesar da sua integridade, Freud é a urbanidade em pessoa. Ele ouve pacientemente cada intervenção, não procurando jamais intimidar o entrevistador. Raro é o visitante que deixa a sua presença sem algum presente, algum sinal de hospitalidade!
Havia escurecido. Era tempo de eu tomar o trem de volta à cidade que uma vez abrigara o esplendor imperial dos Habsburgos.
Acompanhado da esposa e da filha, Freud desceu os degraus que levam do seu refúgio na montanha à rua, para me ver partir. Ele me pareceu cansado e triste ao dar o seu adeus.
- Não me faça parecer um pessimista - disse ele após um aperto de mão. - Eu não tenho desprezo pelo mundo. Expressar desdém pelo mundo é apenas outra forma de cortejá-lo, de ganhar audiência e aplauso. Não, eu não sou um pessimista, não enquanto tiver meus filhos, minha mulher e minhas flores! Não sou infeliz - ao menos não mais infeliz que os outros.
O apito do meu trem soou na noite. O automóvel me conduziu rapidamente para a estação. Aos poucos, o vulto ligeiramente curvado e a cabeça grisalha de Sigmund Freud desapareceram na distância ..