segunda-feira, 2 de setembro de 2019

METAPSICOLOGIA E CLÍNICA DO TRAUMA: O Psicanalista como Testemunha

Minicurso com o Prof. Dr. Daniel Kupermann*


  
                                                          
Data: 20 e 21 de Setembro 

Horário: sexta das 19h00 às 22h00 e  sábado das 9h00 às 12h00

Local: auditório do Hotel Ibis Budegt Maringá 

Investimento: Público geral R$ 250,00
Membros da Roda: R$180,00 

Inscrições: enviar no email rodadepsicanalise@gmail.com  o nome completo com telefone, profissão/instituição, juntamente com o comprovante de depósito bancário.





*Depósito bancário em nome de  Isabelle Maurutto Schoffen
CPF: 027.224.589-50
Caixa Econômica Federal AG: 3849
 Conta Poupança: 1094-0
 Operação: 013  


*Daniel Kupermann é psicanalista e presidente do Grupo Brasileiro de Pesquisas Sándor Ferenczi. Livre-docente do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, onde coordena o psiA – Laboratório de Pesquisas e Intervenções em Psicanálise. É bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq. Autor dos livros Por que Ferenczi?, Estilos do cuidado: a psicanálise e o traumático (pela editora Zagodoni), Transferências cruzadas: uma história da psicanálise e suas instituições (pela editora Escuta), Presença sensível: cuidado e criação na clínica psicanalítica, e Ousar rir: humor, criação e psicanálise (ambos pela Civilização Brasileira).

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Sobre Fanatismo e a Psicanálise Mal-humorada

Por Samara Megume Rodrigues*
Texto publicado  no Jornal Psicologia em Foco: edição 35/2018


Todo fanático, seja ele religioso, político, workaholic, obcecado de amor, é mal-humorado. Pois além de acreditar que existe a forma correta/completa/perfeita de aplacar todos os conflitos, essa ainda seria única. Não existe flexibilidade em seus investimentos afetivos e a  rigidez também é imposta às pessoas a sua volta. Afinal, quem é duro consigo mesmo adquire o direito de também ser com os outros.
 Só podemos rir quando deixamos cair nossa altura, nossa onipotência. Um tropeço pode ser ocasião de gargalhadas para alguns ou de vergonha e humilhação para outros. Freud (1905/1927) estudou o fenômeno do riso e comicidade em duas de suas obras. Não por acaso, são seus trabalhos menos lidos. O ser humano tem uma tendência maior em focar no sofrimento, na doença e na morte do que na saúde e na vida. Tão complexo quanto à dor é a alegria, porque não estuda-la? A resposta: porque não é coisa séria.
Existe uma piada que é bastante conhecida e é contada ora para denegrir o ofício da psicanálise, ora para apontar a sua frutífera singularidade. É assim:

Dois amigos se encontram, um deles visivelmente abatido. Quando questionado sobre seu estado ele diz que com sua idade ainda faz xixi na cama, o que o deixa mortificado. O amigo sugere que ele procure um psicanalista. Muito tempo depois, eles se reencontram e o queixoso está alegre, confiante e descontraído:
- Segui seu conselho e estou me analisando.
- Que bom, então você não faz mais xixi na cama?
- Continuo fazendo, mas agora eu nem me importo!

Embora saibamos da efetividade da psicanálise na modificação dos males do sujeito, há muita verdade nesta anedota. Diferentemente das outras psicologias, a psicanálise não se foca na cura do sintoma, mas na relação que o sujeito estabelece com a realidade. O humor altera exatamente essa relação. O que se transforma numa análise (e o que muda com humor) não são as tragédias da vida, mas a relação que estabelecemos com elas.
Uma constatação inquietante: o que nos faz rir é tecido com os mesmos fios daquilo que nos faz chorar. Ambos evidenciam algo que nos ultrapassa, que escapa do nosso controle consciente. Como entender a dinâmica do sujeito que, ao invés de se desesperar com a falha, sorri, extraindo prazer onde aparentemente só existiria dor?
Para Freud (1905) o chiste* [Witz] é a realização simbólica de desejos sexuais e agressivos. Ele é a satisfações de desejos reprimidos, mas diferente do sintoma, se encontra dentro dos limites da saúde mental. Em tom de brincadeira, o sujeito pode dizer o que deseja, atravessando as barreiras da moral e dos “bons costumes”. O chiste é uma formação do inconsciente (tal como os sonhos, atos falhos, sintomas, lapsos, esquecimentos). Mas ele possui a singularidade de ser intencional e criar laço social: ele comunica um saber que não pode ser completamente revelado.
Freud (1927) não investiga apenas as brincadeiras verbais, mas o humor como atitude psíquica do sujeito diante de si mesmo e do mundo. Ele revela que o que está em jogo é um papel afável do Supereu, que consegue amparar o Eu diante das adversidades. Como se o sujeito pudesse dizer a si mesmo: “Vejam, isso é o mundo que parece tão perigoso. É uma brincadeira de crianças, é bom para um gracejo!” (Freud, 1927, p.330). Trata-se da capacidade de saber perder, uma alegria súbita que acontece no reconhecimento da própria insuficiência (constitutiva da vida).
O sujeito incapaz de ter humor está preso a intensas idealizações. Freud  estudando esse mecanismo psíquico mostra que ele está presente na melancolia, nas perversões e na adesão cega dos indivíduos a um líder/tirano/grupo. Para Freud (1921) tal mecanismo renova a situação de abandono infantil, impondo uma relação entre um ser poderoso e um imponente e indefeso. O humor vai à contramão desta atitude, pois é um processo de desidealização.“O humor não é resignado é rebelde” (Freud, 1927), pois nele o sujeito consegue afirmar seu desejo diante das figuras de autoridade, configurando-se assim, como um avesso do sintoma. Não se trata de gozar do sofrimento, mas criar representações eróticas para ele. Ou seja, o humor seria uma “recusa” ao masoquismo.
O mau humor é mais contagioso do que gripe. Imagine então se você está numa situação completamente exposta, como um setting analítico. Por isso certifique-se de que seu analista toma os devidos cuidados: se ele próprio faz análise, supervisão e se mantém ativo, estudando.  Nada mais engraçado e consequentemente trágico, do que um analista fanático por interpretações. Onde o “sujeito suposto saber” funciona como uma máscara colada à cara, que nunca cai. A teoria lhe serve de escudo e a dissimetria da relação analítica é sua arma. A necessidade de ataque é proporcional à fragilidade. Há analistas que nunca riem, justamente porque o riso ameaça todas as autoridades. Não se trata de rir do analisando, mas rir com ele. São profissionais que não produzem com o paciente, mas trazem as verdades no bolso, a serem impostas.
O dogmatismo está a serviço do recalque. Como é possível produzir a abertura do inconsciente estando o analista preso ao seu próprio julgo superegóico?
A regra fundamental da Psicanálise, a associação livre por parte do analisando e atenção flutuante, por parte do analista, só é possível na medida em que algumas barreiras possam ser suspensas. A rigidez moral ou teórica do analista faz a atenção afundar.  Estaria ele disposto a abandonar a segurança das certezas para poder navegar, atravessando o insólito, inquietante, agressivo e assustador presente nas fantasias do analisando?
O estudo da metapsicologia do humor, da alegria, da arte (e demais processos sublimatórios) leva a uma direção de cura que aposta na invenção, em lugar da decifração (estéril) do passado.
Zaratustra de Nietzsche (1998) fala “Eu só poderia crer em um Deus que soubesse dançar”. A autoridade interna e/ou externa estática produz submissão e violência. Em uma análise é preciso saber descer e subir, se movimentar para poder achar a cadência e o ritmo do encontro analítico - sempre singular.
No fanatismo não é possível ter dúvidas, elaborar questões. Por isso ele é tão improdutivo/repetitivo. As certezas fecham a possibilidade de encontro com o novo. Para além (ou aquém) das respostas, em uma análise podemos construir boas questões sobre nossa história...que nos movimentarão a produzir melhor a partir de nossas falhas. Como escreve Luiz Fernando Veríssimo: “está certo, a gente morre sem entender o sentido da vida, mas não faz mal porque ninguém vai nos testar depois”.




Acesse o jornal no link:  https://institutopsicologiaemfoco.com.br/    



*Samara Megume Rodrigues, é psicanalista e psicóloga (CRP 08/18324), graduada em psicologia pela Universidade Estadual de Maringá, mestre em Psicologia pela mesma Instituição (na linha Epistemologia e Práxis em Psicologia). É idealizadora e coordenadora da Roda de Psicanálise: espaço de transmissão e Formação. 


**Chiste é uma tradução calcada no espanhol para o termo Witz no alemão, ela soa estranha ao vocabulário brasileiro, pois em português não existe uma palavra que represente perfeitamente o termo freudiano. Trata-se das frases espirituosas, das tiradas verbais, que engloba piadas, trocadilhos, etc.                                                                                                                                       



Referências Bibliográficas

Freud, S. (1996). Os chistes e a sua relação com o inconsciente. In: Edição Standard Brasileira das Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. (vol, 8). Rio de Janeiro: Imago. (Obra originalmente publicada em 1905).

Freud, S.(2014). O Humor. In: Obras Completas (vol. 17, P. C. de Souza, Trad.). São Paulo: Companhia das Letras. (Obra original publicada em 1927).


Nietzsche, F. (1998). Assim Falou Zaratustra. São Paulo: Companhia das Letras. 


quarta-feira, 19 de junho de 2019

Corpus Christi

*Rubem Alves 


Tenho medo de morrer e ir para o céu. Eu me sentiria um estranho por lá. A Cecília Meireles pensava o mesmo. E se perguntava se, “Depois que se navega, a algum lugar enfim se chega... O que será, talvez, até mais triste. Nem barca, nem gaivota: somente sobre-humanas companhias...“. Também eu preciso de barcas e gaivotas, pois amo o mar e o ar. Sou um ser deste mundo e sinto que no meu corpo moram rios, árvores, montanhas e nuvens. Nenhum mundo além poderá consolar-me da sua perda. É certo que um espírito, por bem-aventurado que seja, não pode sentir o cheiro bom do capim gordura (que recém começa a florescer roxo nos campos). Para isso ele teria de ter um nariz. E nem pode sentir o vento frio das tardes de inverno, a lhe golpear o rosto. Ao que me parece, espíritos não têm pele. E (pobres) não podem jamais sentir o prazer de mergulhar no mar. Esta alegria animal está vedada aos espíritos, seres etéreos que, ao que consta, não sofrem os efeitos da gravidade (ou da gravidez). Sua leveza os protege de quedas de muros, mas lhes tira a alegria do mergulho. Saltam, e ficam flutuando no espaço.


Amo este mundo. Por isso não quero ir para o céu. Nietzsche sentia o mesmo. E até sonhou com o “retorno eterno“ - voltarei sempre a este mesmo lugar, o único que conheço, das coisas materiais do cotidiano, que vão desde o café com leite e pão com manteiga, pela manhã, até a música de Bach e os céus estrelados, à noite. Isto, para não se falar nos prazeres do amor, que não podem subsistir sem o corpo. Pois precisam do encanto dos olhos que dizem: “Como é bom que você existe...“. E do olfato, que percebe desde o “brabo cheiro bom de suor e graxa“, a que Adélia Prado se refere, até o perfume de pêssego maduro que vem da flor do imperador, tão discreta, e que Guimarães Rosa declarou ser a mais querida. E os ouvidos? As serenatas (antigas), o “eu te amo“ (eterno), os poemas - são todos seres materiais, que não existem sem a física da fala. Não posso imaginar um som espiritual, embora se diga que os querubins tocam harpas e cantam. Sons precisam de bumbos, trombones, violinos, dedos, sopro, corpo: são coisas físicas, corpóreas. E fico preocupado com o destino de Bach e Beethoven, espíritos nos céus, para sempre separados dos bons instrumentos da terra onde tocaram a sua música.


Por isso me alegrei com esta festa de nome latino, Corpus Christi, em que a cristandade comemora, teimosa e inconsciente, o corpo de Cristo. Fosse a celebração da sua alma, confesso que fugiria. Almas do outro mundo, boas ou más, são assombrações que causam medo. Sei que há um dia que as celebra, o dia de “todas as almas“, também chamado de dia de todos os santos, logo antes de finados. O que combina muito bem. A alma começa quando o corpo termina. Parece que acreditavam que as almas vagavam, penadas, por este mundo (dia das bruxas!), sofrendo e assombrando os vivos - que, neste dia, faziam orações por sua eterna salvação nos céus, deixando livre a terra para as coisas materiais e boas que nela moram. Mas este dia, Corpus Christi, a se acreditar na tradição, diz que Deus, cansado de ser espírito, descobriu que o bom mesmo era ter corpo, e até se encarnou, segundo o testemunho do apóstolo. Preferiu nascer como corpo, a despeito de todos os riscos, inclusive o de morrer. Porque as alegrias compensavam. E nasceu, declarando que o corpo está eternamente destinado a uma dignidade divina. Curioso que os homens prefiram os céus, quando Deus prefere a terra. Lembro-me do espanto do chefe índio que escrevia ao presidente dos Estados Unidos e dizia não poder compreender as razões que levavam os brancos a desejar, depois de mortos, ir morar num lugar muito longe da terra. Nós, ele dizia, precisamos do perfume dos pinheiros, do barulho da água, dos riachos, do cintilar da luz sobre a superfície dos lagos. Corpus Christi: divino é o pão e toda a terra onde cresceu, com a água que o fez germinar, e o vento que o acariciou, e o fogo que o cozeu. Divino é o vinho, alegria pura que dá asas ao corpo e o faz flutuar. Coisas do corpo: dentro dele cabe o universo. Não é à-toa que a tradição fala não em imortalidade da alma mas em ressurreição do corpo. Afirmação de que a vida é bela e o divino se encontra nas coisas materiais mais simples. Como dizia Blake: “Ver a eternidade num grão de areia“. Ou Fernando Pessoa: “Toda matéria é espírito“. E assim, como e bebo as coisas deste mundo, corpo de Deus...



*retirado do livro de Rubem Alves - "Tempus Fugit". São Paulo: Paulus, 1990. 

domingo, 26 de maio de 2019

UM OLHAR PSICANALÍTICO SOBRE AS PROBLEMÁTICAS ALIMENTARES



Não bastasse a fome que vem das entranhas diariamente, também comemos com os olhos, empanturrados por anúncios de comida, de restaurantes, de serviços de entrega. Há canais onde se pode ver programas de receita 24 horas por dia, há realites e disputas: o melhor cozinheiro, confeiteiro, padeiro...há os po-ups nas mídias sociais e os aplicativos que tem a receita certa para cada ocasião.
Ao mesmo tempo, não somos menos expostos a notícias sobre índices de saúde e as formas e medidas ideais do corpo. Seja pelo viés da saúde ou pelo da estética, estamos em constante conflito entre esses parâmetros e a oferta de comida! Mas para esse conflito também há receitas e comidinhas: funcionais, fit, light...as vezes parece até que respiramos comida!

Por que as questões alimentares ocupam tanto espaço em nossas vidas, no mundo e na cultura?
O que pode haver de inconsciente nas determinações de nosso comportamento alimentar atualmente?
Qual o impacto desse fenômeno cultural nas anorexias, bulimias e compulsões?
O que a Psicanálise tem a contribuir na compreensão destas questões?



CONFERÊNCIAS

Dia: 14 de junho
Horário: às 18h30
Local: Auditório do Ibis Budget

Abrangências e Especificidades
 Camila Junqueira

A Buliminha e seu alimento-droga
Nanci de Oliveira Lima

INQUIETAÇÕES NA CLÍNICA

Atividade de discussão de casos clínicos
Com as psicanalistas Camila Junqueira e Nanci de Oliveira Lima

Dia: 15 de junho
Horário: 8h30
Local: Auditório do Ibis Budget
Restrito a profissionais da área que realizam atendimento de escuta clínica


INSCRIÇÕES:

Link: bit.ly/inquietacoesdaclinica ou  enviar no email rodadepsicanalise@gmail.com  o nome completo com telefone, profissão/instituição, juntamente com o comprovante de depósito bancário.

*Depósito bancário em nome de  Isabelle Maurutto Schoffen
CPF: 027.224.589-50
Caixa Econômica Federal
AG: 3849 
Conta Poupança: 1094-0 
Operação: 013  


*Camila Junqueira, psicanalista, doutora e pós doutora pelo instituto de psicologia da universidade de São Paulo, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, membro do Projeto de pesquisa e clínica psicanalítica das Problemáticas Alimentares, coordenadora do curso de expansão sobre Problemáticas Alimentares neste instituto e autora de diversas publicações.

**Nanci de Oliveira Lima, psicanalista, especialista em Dependências Químicas e Não Químicas pelo Proad-Unifesp, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, docente do curso de expansão sobre Problemáticas Alimentares deste Instituto, membro do GTEP - Grupo de Transmissão e Estudos de Psicanálise, ex-membro do Projeto de pesquisa e clínica psicanalítica das Problemáticas Alimentares, articuladora da área de Administração e Finanças do Conselho de Direção deste Departamento, na gestão 2019/2020.








segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Roda de Psicanálise oferece:

Com os membros do GTEP – Grupo de Transmissão e Estudos de Psicanálise do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae

  
Objetivos: Oferecer um espaço de transmissão da psicanálise, onde o estudo cuidadoso da obra de Freud e dos pós-freudianos é considerado fundamental para criar uma base sólida para a intervenção clínica. Trabalhar os conceitos e operadores que fundamentam a clínica psicanalítica. Desenvolver a escuta clínica, 
levando em consideração a metapsicologia freudiana. Acompanhar e supervisionar o trabalho clínico dos alunos em formação. Criar um espaço crítico e questionador, confrontando a coerência interna do discurso teórico com a prática clínica. 
   
Destinado a: profissionais com formação universitária – psicólogos, médicos ou de áreas afins – que desejam aperfeiçoar seu conhecimento teórico e técnico da psicanálise. 

Requisitos: Conhecimento básico da teoria psicanalítica, estar em atividade clínica em consultório particular ou em instituições, estar em análise pessoal e em supervisão clínica. 

Conteúdo Programático: Seminários teóricos, teórico-clínicos e clínicos, que serão propostos pela equipe do GTEP, de acordo com a singularidade do grupo a ser formado. 
  
Duração: quatro módulos de nove meses cada, perfazendo um total de 36 meses (4 anos). 
  
Carga horária: 8 horas mensais (as sextas no período da noite e aos sábados pela manhã). Com a possibilidade de mais 02 horas de supervisões individuais ou em dupla, a ser combinado mediante contratação adicional. 

Documentos para a inscrição: 01 foto 3x4 atual; curriculum vitae; carta de intenção (breve descrição do trajeto profissional e da motivação para esta formação); comprovante de depósito da taxa de inscrição. 
Os documentos podem ser enviados digitalizados via email para rodadepsicanalise@gmail.com ou impressos via postal para nosso endereço:

Rua Neo Alves Martins n° 2999 
Edifício Marquezini Trade Center, 13° andar. 
Sala 134 
Zona 03 – Maringá – PR 
CEP: 87013-060 


Processo seletivo: Entrevista individual e análise dos documentos. 
   
EntrevistasPrevistas para o segundo semestre de 2019. 
O local e horário das entrevistas, assim como os resultados da seleção, serão comunicados por telefone. 

Taxa de inscrição: R$ 180,00 
Via depósito bancário em nome de  Isabelle Maurutto Schoffen
Caixa Econômica Federal
AG: 3849 
Conta Poupança: 1094-0 
Operação: 013  


Anuidade: Matrícula R$ 650,00* + 9 parcelas de R$ 650,00* 
*sujeito a reajustes



Sobre o Grupo de Transmissão e Estudos de Psicanálise – GTEP 

É formado por membros do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae responsáveis pela transmissão da psicanálise fora dos limites da cidade de São Paulo, desde 1989. Seu objetivo é oferecer um percurso teórico clínico em psicanálise, o que é parte essencial da formação psicanalítica e requer constante trabalho de ampliação e reelaboração de conhecimentos, no interior do campo psicanalítico e no intercâmbio com áreas afins. Pauta-se pela escuta psicanalítica, apoiada na transferência, e pelo referencial freudiano em seu rigor conceitual, consistência metodológica e princípios éticos. Esta transmissão é fundamentada, sobretudo pelo estudo dos textos freudianos. 

Sobre o Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae 

Ativo desde 1985 é um espaço de formação, interlocução, produção de pesquisas e publicações dentro do movimento psicanalítico, através do exercício fecundo da transmissão de múltiplas experiências de trabalho clínico, de eventos públicos e de produção editorial, assim como do contato e intercâmbio com outros analistas, grupos, instituições e espaços psicanalíticos ou ligados à psicanálise. 

Para mais informações: www.sedes.org.br/Departamentos/Psicanalise 


Sobre a Roda de Psicanálise: teoria, clínica e cultura 

Iniciada em 2013 na cidade de Maringá, é um espaço para pensar a (e por meio da) psicanálise as questões cotidianas, familiares, econômicas, sociais e culturais. Seu objetivo é proporcionar um espaço de interlocução e construção do pensamento psicanalítico com seus pares, na medida em que se compreende a formação em psicanálise como um processo contínuo e permanente. 

Observações: 

1) A formação não funcionará com menos de 80% de totalidade das vagas oferecidas. 

2) Os candidatos à formação serão submetidos a um processo de seleção e somente poderão se matricular aqueles que forem aprovados. 

3) Os alunos da formação, para obter o certificado de conclusão, deverão: 
  • Frequentar no mínimo 80% das aulas; 
  • Apresentar trabalho de conclusão proposto pelo corpo docente; 
  • Cumprir as exigências propostas pela formação. 
4) O preço da anuidade está sujeito a reajustes. 


Coordenadoras 
Aline Sanches 
Isabelle Maurutto Schoffen 
Samara Megume Rodrigues 
Secretário 
Gustavo Góis 

Informações: 
e-mail: rodadepsicanalise@gmail.com 
telefone: (44) 99834-4281 /(44) 99938-3542 





segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Supervisão Clínica em Psicanálise

 Samara Megume Rodrigues*
                                                                     Aline Sanches*

A supervisão clinica, conjuntamente com a análise pessoal e o estudo teórico, é um dos pilares da formação do analista. Ela tem sido amplamente difundida e está presente dentro e fora das instituições psicanalíticas. Ocorre quando um analista procura outro, fora do seu contexto de análise pessoal, para falar de sua prática, de seus impasses e de dificuldades no tratamento de um paciente. Mas o ato de supervisionar não se limita a discussão teórica/diagnóstica, metodológica e técnica do caso clínico e não deve se  confundir com uma prática pedagógica. A supervisão também é um espaço para despertar efeitos analíticos e abertura do inconsciente, em que o supervisionando é confrontado com seus “pontos cegos”, angustias e movimentos defensivos. No entanto, o manejo dessas dificuldades não se dá de modo idêntico ao trabalho das resistências na análise pessoal, então, afinal, o que é uma supervisão?
A supervisão enquanto prática institucionalizada surge em 1920, na Policlínica de Berlim, inaugurando o modelo de formação de analistas que posteriormente seria adotado pela maioria das instituições: análise pessoal, cursos teóricos e supervisão. O termo aparece pela primeira vez em um relatório escrito por Max Eitingon, que foi um dos principais idealizadores da formação em psicanálise oferecida pela Policlínica. No entanto, pode-se entender que uma espécie de supervisão nestes moldes já estava presente desde a fundação da Psicanálise. Freud sempre necessitou reavaliar sua clínica, buscando um terceiro na sua relação com seus pacientes. Este lugar de terceiro foi ocupado tanto pela escrita de sua obra, quando pelas correspondências trocadas com Fliess e o debate com seus colegas (Moreau, 1977). Freud não apenas procurava interlocutores, mas era constantemente procurado pelos primeiros analistas, que necessitavam discutir sobre suas dúvidas e dificuldades teóricas e técnicas.
Embora a transmissão de conhecimento teórico tenha um espaço importante na prática de supervisão, esta não deve se confundir com a aprendizagem no sentido pedagógico, em que o professor comunica ao aluno um conjunto bem articulado do conhecimento, recorrendo à didática. Se o supervisor assume essa posição, ele acaba por submeter o material analítico inconsciente à domesticação racional, produzindo exatamente o reverso do que é indicado pelo método psicanalítico, este último pautado na associação livre, na atenção flutuante e na análise da transferência. Para falar da especificidade do método psicanalítico, Freud (1904) utiliza uma metáfora retirada da arte, e assim escreve:

Na verdade, entre a técnica sugestiva e a analítica há o maior contraste, aquele contraste que o grande Leonardo da Vinci condensou para as artes na fórmula per via di porre e per via di levare. A pintura, diz Da Vinci, trabalha per via di porre; é que ela coloca montinhos de tina onde eles antes não existiam na tela sem cores; a escultura, por sua vez, procede per via di levare, já que retira da pedra o necessário para revelar a superfície da estátua nela contida. (Freud, 1904, p.67)


As práticas de sugestão, e podemos incluir nelas algumas formas de psicoterapia e de ensino, trabalham per via di porre, não buscando os conflitos subjacentes aos sintomas, mas colocando sob eles um sentido suficientemente conveniente, buscando impedir “a ideia patogênica de se expressar” (Freud, 1904, p.67).  Já o método psicanalítico não busca imprimir sentidos racionais ao sintoma, mas “tirar e extrair” o excesso de sentido que cobre o desejo e as fantasias inconscientes. Ou seja, a análise e consequentemente a supervisão, visa o “des-recalque”, desfazendo as defesas e retirando as resistências que encobrem a verdade do sujeito.  Nesse sentido, como bem apontado por Regina Schnaiderman (1988) “analisar é um fazer saber e não um saber fazer”.
 Ropa (1996) aponta que a supervisão é uma prática de transmissão de saber, que vem do desejo do supervisionando de compreender o diagnóstico, estrutura, mecanismos de defesa e funcionamento psíquico de seu paciente. Portanto, ela deve englobar uma reflexão sobre o inicio do tratamento, entrevistas preliminares, abertura de análise, direção de tratamento e a interrupção ou finalização do processo analítico. Porém, o trabalho de teorização na supervisão guarda algumas especificidades. A autora o define como “teorização flutuante”, correlato da técnica de “atenção flutuante”, sendo este um trabalho permanente de construção e desconstrução de hipóteses diagnósticas, restabelecimento de elos entre leituras e transferência, possibilitando assim que o analista (re)encontre o caminho da descoberta freudiana, que passa pelo entrelaçamento entre teoria e técnica.
Em psicanálise, a técnica é fundamentalmente uma ética, pois contém a escuta do desejo fora dos parâmetros normativos e moralizadores. Não parte, assim, do paradigma da verdade universal, assumindo que esta é sempre parcial e singular. Desta maneira, o saber não é tido como algo fechado e acabado, mas algo em constante feitura. Entende-se que as certezas estão a serviço do recalque e produzem aderências idetificatórias, que facilmente se convertem em posturas dogmáticas e cristalizadas. Neste sentido, a supervisão e principalmente a supervisão em grupo, ganha importância como este espaço em que o analista sai da posição de aluno-discípulo e pode construir, coletivamente e por meio de escutas cruzadas, o saber sobre sua prática, “para não cair na armadilha de sempre escutar o que já sabe”
Na supervisão em grupo, o analista tem contato com colegas que se revezam na apresentação de situações particulares da experiência clínica, também aprendendo a ouvir como supervisor seus colegas, assim como em outro momento é ouvido por eles. Com isso, o analista em supervisão tem contato com diferentes aportes teóricos e manejos da psicanálise, diferentes leituras de Freud e distintos estilos clínicos. Esse confronto ajuda a desfazer identificações de maestria contribuindo para que o analista possa construir sua própria maneira de escutar e intervir, ou seja, um estilo clínico que lhe é próprio. Tendo isso em vista, Fétida (2001) irá afirmar que a supervisão é uma prática matricial, como artesões que trabalham sua improvável arte.
Sabemos que é sobretudo a partir da análise pessoal que se constrói as aptidões para a escuta do inconsciente em uma sessão e que esta é nosso primeiro modelo do fazer analítico. Desta forma, a supervisão também serve como contraponto (como terceiro) não apenas da relação do analista com seu paciente, mas também, da relação do supervisionando com seu próprio analista. Na supervisão, o sujeito pode “interrogar-se sobre os pontos de contato e de interferência de sua prática com sua análise” (Menezes, 2005 p.62), evitando uma aderência cega e automática a este modelo tão fundante e tão fundamental. Assim, ela promove a circulação do saber e da diferença, elementos necessários para que o analista possa encontrar a palavra singular presente na intermitência de ser sujeito.



*Samara Megume Rodrigues, é psicanalista (em formação pelo GTEP-SEDES) e psicóloga (UEM). Possui mestrado em Psicologia (PPI-UEM), na linha epistemologia e práxis em Psicologia. É idealizadora e coordenadora da “Roda de Psicanálise: espaço de transmissão e formação”.

*Aline Sanches é psicanalista (em formação pelo GTEP-SEDES) e psicóloga (UNESP). Possui doutorado em Filosofia (Ufscar) e Psicanálise (Paris VII).


Referências Bibliográficas

 Fédida, P.(2001) Entrevista: Supervisão e Formação. Jornal de Psicanálise. São Paulo, v.34 (62/63).
Freud (1904). Sobre Psicoterapia. In: Obras Incompletas de Sigmund Freud – Fundamentos da Clínica Psicanalítica. São Paulo, Autêntica.
Menezes, L, C. (2005). Considerações sobre a Supervisão.  Percurso: Revista de Psicanálise. n.35.
 Moreau, M. (1977). Análise quarta, supervisão, formação. In: Jornal de Psicanálise, v.34 (62/63), 2001.
Ropa, D. (1991). As três dimensões da Supervisão. Percurso; 3(5/6).
Schnaiderman, R. (1988). Política de Formação em Psicanálise: Alinhavando algumas anotações de leitura.  Percurso: Revista de Psicanálise. n.01. 






domingo, 4 de fevereiro de 2018

O sofrimento como expressão da vida: os limites da cultura diagnóstica

Josiane C. Bocchi*
Aline Sanches*





Em nossa cultura, nos esforçamos para transformar toda experiência de sofrimento humano em uma patologia a ser tratada. Simão Bacamarte, o grande alienista, já sabia que “a ciência tem o inefável dom de curar todas as mágoas” (Machado de Assis, 1882/1993, p.48). Ao receber um determinado diagnóstico, “o neurótico”, “o depressivo” ou “o bipolar” nomeia-se – e é nomeado pelo saber do especialista - através de um ato de fala capaz de produzir performativamente novos efeitos, ampliando mas também restringindo outras possibilidades (Safatle, 2013). Quais são as implicações dessa psiquiatrização engendrada pelos manuais diagnósticos e pela medicalização crescente da vida contemporânea? As classificações partem do princípio de que todos os tipos de mal-estar podem ser codificados, diagnosticados e tratados com a mesma eficácia e precisão com que se trata um organismo e seu órgão afetado.
Temos assistido ao crescimento exponencial das estatísticas nos casos de autismo, TDH e depressão, a ponto de ganharem status de epidemias. Mas sabe-se que tais índices crescem na mesma proporção que os instrumentos diagnósticos que os identificam. Seguindo este raciocínio, sabemos que muitos diagnósticos de transtorno mental são efeitos da visão normativa dos manuais psiquiátricos e do mero anseio por classificar. Anseio este que não atinge somente os especialistas; quem sente um mal estar, imediatamente já começa a se identificar com listas de sintomas que circulam pela internet. É a busca de um nome para se ancorar ou para refutar: que tal um diagnóstico para chamar de seu? E, por acaso, um nome inclui? Sim, há novas identidades criadas e reinventadas em modismos e siglas: TEPT, TBP, LGBT...
Contudo, há diferentes modos de sofrer a vida que não precisam – e que muitas vezes não podem – ser nomeados. Assim, primeiramente gostaríamos de propor uma reflexão sobre o transtorno mental não como doença ou patologia – embora ele seja um signo do campo da psicopatologia -, mas fundamentalmente como uma experiência de sofrimento. Em seguida, pensar o sofrimento como indissociável de uma categoria política que aspira ao reconhecimento (Dunker, 2015), uma vez que o sofrimento comunica, anuncia, denuncia, cala certas coisas, grita outras, mas aponta limites. Pode ser limites de um indivíduo, de um coletivo ou de uma sociedade e de sua época, da economia liberal, do mundo globalizado e de suas invenções efêmeras, onde produtos, grupos e pessoas são equalizados no mesmo registro do valor de troca; em que as demandas sociais impostas e/ou assumidas pelo sujeito, de eficácia e produtividade, refletem padrões inviáveis de consumo, beleza e vitalidade.
Assim, propomos deslocar o alvo de nosso furor diagnóstico, mirando a cultura e analisando seus sintomas e suas figurações de mal-estar, e não o indivíduo. Logo, encontramos vários autores que descrevem nossa atualidade como marcada por perdas e vazios, “entendida alternativamente como incapacidade do sujeito de reconhecer-se em sua própria história particular ou como dificuldade de estabelecer formas sociais universalmente compartilháveis” (Dunker, 2011, p.115). Cultura marcada por vínculos sociais rasos, frágeis e móveis, compondo narrativas esburacadas e solitárias, em que pesam “expressões do paradigma mórbido, que caracteriza a subjetividade moderna como um inventário de desencontros, falsas restituições, promessas irrealizadas e elaborações melancólicas” (ibid, p.119). Neste sentido, ancorar-se em uma classificação diagnóstica satisfaz certos aspectos de nossa necessidade de enraizamento e pertencimento, mesmo quando se trata de paragens reconhecidas socialmente como deficitárias, limitadas e patológicas. A noção de transtorno mental como doença, como déficit (de hormônio, neurotransmissor ou de ajustamento ao que se espera), busca padronizar o sofrimento e é representada pelo modelo médico que ganhou força a partir da década de 60 com a descoberta dos primeiros fármacos para psicose e depressão maníaca. Em contraposição a esta visão padronizadora do sofrimento, a psicanálise oferece meios para torná-lo singular, não para aumentar o fosso da solidão que nos separa uns dos outros, mas possibilitando a criação de uma narrativa pessoal e social em que me reconheço nos outros seres viventes, mesmo quando exalto minha originalidade e onde minha experiência de sofrimento torna-se matéria-prima para potencializar a vida.



* Josiane C. Bocchi é doutora em filosofia, psicóloga, professora de psicopatologia do Departamento de Psicologia da UNESP-Bauru.
* Aline Sanches é doutora em filosofia, psicóloga psicanalista e professora do Departamento de Psicologia da UEM. Coordenadora da Roda de Psicanálise.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

DUNKER, Christian Ingo Lenz. (2015). Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros. São Paulo: Boitempo.
DUNKER, Christian Ingo Lenz. (2011) Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 23, n. 1.
MACHADO DE ASSIS. O Alienista. Contos. Seleção, introdução, notas e questionários de Francisco Achcar. São Paulo: CERED– Objetivo, 1993. (Texto original publicado em 1882).
SAFATLE, V. P. O poder da psiquiatria. Revista CULT, São Paulo, v. 184, 16 out. 2013.